Você está aqui: Sala de imprensa Tancredo Neves – Construtor de pontes

Tancredo Neves – Construtor de pontes

Informação para a imprensa – Fundação Presidente Tancredo Neves – Fevereiro/2010


Estrategista político e exímio negociador, Tancredo Neves superava barreiras por meio do diálogo, sempre pautando a atuação em sólidos princípios éticos


Desde a década de 50, como deputado federal e ministro da Justiça de Getúlio Vargas, Tancredo Neves usou a política para construir pontes entre adversários e aliados, ajudando a superar barreiras e a levar a incipiente democracia a novos patamares. Como tribuno ou como articulador político, esteve presente em alguns dos momentos mais importantes da vida política brasileira.


De acordo com a historiadora e cientista política Lucília de Almeida Neves Delgado, coautora do livro “Tancredo: Trajetória de um Liberal”, ele fez da atividade política uma obra de engenharia, sempre buscando o diálogo com os contrários, no limite das possibilidades de cada momento. Para o jornalista Mauro Santayana, colaborador de Tancredo, a trajetória do ex-presidente fala por si. “Era um homem extraordinário”, afirma.


Ronaldo Costa Couto, colaborador do ex-presidente e integrante do ministério de José Sarney, autor do livro “Tancredo Vivo – Casos e Acaso”, de 1995, destaca a capacidade de Tancredo para negociar. “Era um raro estrategista político, dono de uma visão de médio e longo prazo com índice de acerto muito elevado”, afirma. “Conseguia ver para onde estava ventando a história. Era excelente negociador. Tudo isso dentro de um limite ético muito claro”.


Fundação do PSD
O vanguardismo de Tancredo esteve presente em momentos cruciais da história brasileira. No início de 1945, diante do enfraquecimento do Estado Novo, Vargas deu inicio a um projeto de reformas que incluía a reorganização dos partidos. As forças situacionistas se organizaram no Partido Social Democrático (PSD), criado em abril e ao qual Tancredo se filiou. Em outubro, Vargas foi derrubado por um golpe militar.


Deputado estadual e federal
Eleito para a Assembléia Legislativa de Minas Gerais pela legenda do PSD, em 1947, conquistou seu primeiro mandato de deputado federal 1950. No mesmo pleito, Getúlio foi eleito presidente da República e Juscelino Kubitschek governador de Minas Gerais.


Ministro da Justiça de Getúlio
Empossado em fevereiro de 1951, em junho de 1953 licenciou-se da Câmara para assumir o Ministério da Justiça. Nesse momento, o governo enfrentava cerrada oposição no Congresso, na imprensa, nas Forças Armadas e no empresariado. A situação foi se agravando progressivamente, culminando na madrugada de 5 de agosto de 1954, quando o jornalista Carlos Lacerda, principal porta-voz oposicionista, foi baleado na rua Toneleros, em Copacabana. No atentado, morreu o major-aviador Rubens Vaz.
Tancredo Neves emitiu um comunicado afirmando a disposição do governo de elucidar o crime. Os resultados das primeiras investigações incriminavam dois membros da guarda pessoal de Vargas, logo dissolvida pelo presidente por sugestão de Tancredo. Seu discurso sobre o suicídio de Getúlio, um ano depois, funciona como verdadeira peça de denúncia dos setores golpistas que se aproveitavam da legitimas criticas ao governo.


Diálogo com Julião e Prestes
Foi opositor do governo de João Café Filho e articulador da candidatura de Juscelino Kubitschek à Presidência da República, em 1955. Sem arestas à esquerda e à direita, dialogava com Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas e sinônimo de radicalismo político, e com Luiz Carlos Prestes, presidente do Partido Comunista Brasileiro (PCB).


Primeiro-ministro
A ação política de Tancredo voltou a ter destaque durante a crise resultante da renúncia de Jânio Quadros à presidência (25/8/1961). Seu substituto legal, o vice-presidente João Goulart, encontrava-se em visita à China. Goulart iniciou sua viagem de volta ao Brasil, mas os ministros militares vetaram sua posse. Foi então apresentada a proposta de uma emenda constitucional que convertia o regime presidencialista em parlamentarista.
Procurado por diversos interlocutores que achavam temerária a ideia da resistência armada, uma vez que as forças de apoio a João Goulart eram minoritárias e temiam o advento de um golpe militar, Tancredo viajou para Montevidéu, onde Goulart se encontrava, retornando a Brasília em 1º de setembro com a posição de apoio ao parlamentarismo. A emenda foi aprovada pelo Congresso no dia 2 e cinco dias depois Goulart assumia a Presidência. No dia 8, com o apoio do presidente Goulart, Tancredo tornou-se primeiro-ministro do primeiro gabinete parlamentarista.


Novo mandato
Em 62, Tancredo deixa o posto de primeiro-ministro e elege-se deputado federal pelo PSD mineiro. Transforma-se em líder do governo João Goulart na Câmara dos Deputados, cargo que ocupa até o golpe de 64. Em 6 de janeiro de 1963, o presidencialismo foi reinstaurado através de um plebiscito.


MDB, o novo partido
Após a dissolução dos partidos decretada pelo Ato Institucional nº 2 (27/10/1965) e a instauração do bipartidatismo, Tancredo filiou-se ao oposicionista Movimento Democrático Brasileiro (MDB), reelegendo-se deputado federal em 1966 e 1970.


Anticandidatura
Em fins de 1973, juntamente com o secretário-geral do MDB, Thales Ramalho, lançou a "anticandidatura" do deputado Ulysses Guimarães à sucessão do presidente Emílio Garrastazzu Médici no pleito indireto de janeiro de 1974. Embora sem ilusão de vitória, a campanha emedebista teria sido a mola-mestra da vitória eleitoral do MDB em novembro, quando conquistou 16 das 22 cadeiras em jogo no Senado. Nestas eleições, Tancredo foi novamente eleito deputado federal.

 

Senado e anistia
Apesar de sua postura oposicionista, Tancredo condenava os setores do MDB que se negavam a dialogar com o governo, afirmando-se como liderança da ala moderada do partido e como interlocutor do regime na discussão do projeto de distensão "lenta, gradual e segura" do presidente Ernesto Geisel. Eleito senador em 1978, durante a campanha defendeu a adoção de eleições diretas em todos os níveis e de uma anistia ampla, geral e irrestrita. Em fevereiro de 1979 assumiu sua cadeira no Senado.


Oposição se une no PMDB
Com a extinção do bipartidarismo em novembro de 1979, aproximou-se do deputado Magalhães Pinto, seu antigo adversário na política mineira, visando à formação de um partido de centro, o Partido Popular (PP). Lançado candidato ao governo de Minas Gerais pelo PP, quando o governo apresentou projeto proibindo as coligações partidárias para o pleito de 1982, como reação à iniciativa do governo, Tancredo defendeu a fusão de todas as correntes oposicionistas em uma só legenda, proposta aceita pela maioria do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e do PP. A fusão do PP com o PMDB foi oficializada em fevereiro de 1982. Em novembro, Tancredo elegeu-se governador de Minas Gerais pelo novo PMDB, e em março de 1983 deixou o Senado.


Diretas Já
Em fins de 1983, o deputado Dante de Oliveira apresentou projeto de emenda constitucional restabelecendo as eleições diretas para presidente da República. A emenda mobilizou a opinião pública e as lideranças de oposição, produzindo também grande impacto no Partido Democrático Social (PDS), governista. Começava a ganhar corpo a proposta de um pacto entre a oposição e os descontentes do PDS com vistas a lançar um candidato único à presidência, em pleito direto a ser realizado em novembro de 1984. Desde o início, Nos bastidores, o nome de Tancredo Neves foi pensado para cumprir esse papel. De janeiro a abril de 1984, os comícios em favor das eleições diretas reuniram multidões nas capitais e principais cidades do país.


Vitória no colégio eleitoral
Tancredo participou com destaque de todas as manifestações. Porém, não afastava a possibilidade de o PMDB disputar o pleito presidencial indireto, caso a emenda Dante de Oliveira não fosse aprovada por maioria absoluta. Com efeito, foi isso que aconteceu na sessão da Câmara dos Deputados de 25 de abril de 1984, prevalecendo, portanto, a opção indireta para a escolha do sucessor de Figueiredo em 1985. No final de junho, o PDMB lançou o nome de Tancredo Neves à disputa no colégio eleitoral. Quatro dias depois, a Frente Liberal, dissidência do PDS, rompeu com o governo, dando início às negociações com a oposição em torno da candidatura Tancredo.
Após a formação da Aliança Democrática, ficou decidido que a Frente Liberal indicaria o candidato à vice-presidência, recaindo a escolha no senador José Sarney.


Em 15 de janeiro, o Colégio Eleitoral deu 480 votos a Tancredo Neves e 180 a Paulo Maluf, candidato governista. Entre fins de janeiro e princípios de fevereiro de 1985, com o objetivo de consolidar com apoio internacional o processo de democratização em curso no país, Tancredo visitou os Estados Unidos e vários países da Europa. Com o seu regresso ao Brasil, tiveram início as negociações visando à formação do ministério.


Doença e morte
Um dia antes da posse, marcada para 15 de março de 1985, Tancredo Neves foi submetido a uma cirurgia de emergência. José Sarney tomou posse como presidente na manhã do dia 15.
Tancredo Neves faleceu na noite de 21 de abril, depois de ter sido submetido a sete cirurgias. Na manhã do dia 22, Sarney foi confirmado na presidência. No dia 23, o corpo de Tancredo Neves chegou ao aeroporto de Belo Horizonte, para receber as homenagens de 2 milhões de pessoas. Em São Paulo e em Brasília, multidões foram às ruas se despedir do presidente. Finalmente, no dia 24, na presença de 50 mil pessoas, foi enterrado no cemitério de São João del Rei. Era casado com Risoleta Tolentino Neves, com quem teve três filhos.


Fonte: CPDOC/Fundação Getúlio Vargas (FGV)