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Infância e Adolescência

Depoimento de Tandredo Neves. Do livro "Tancredo Neves: a Trajetória de um Liberal", de Vera Alice Cardoso Silva e Lucília de Almeida Neves Delgado. Editoras UFMG/Vozes. 1985

“Sou o quinto filho de uma prole de doze irmãos. A infância de todos nós corria naturalmente dentro dos padrões exigidos na época. Um pouco de energia da parte dos pais, ou se não, muito de energia e um terço de carinho e todos vivíamos na mais estreita confraternização. Tínhamos hora certa para tudo. Hora certa levantar, hora certa para o café da manhã, hora certa para o almoço, hora certa para o jantar e hora certa para nos recolhermos, de acordo com as idades dos diversos grupos. Esse regime era mantido com a maior severidade e todos obedecíamos como se vivêssemos num regime militar.

Durante as refeições travavam-se discussões acaloradas, mas meu pai impunha uma disciplina de forma que havia sempre a oportunidade de cada um falar e dos demais participarem da conversa, mas cada um a sua vez, para evitar o tumulto. Nossa refeição era sempre frugal, mas sempre muito farta, muito sadia, com a graça de Deus.  Eram pratos comuns: arroz, feijão, carne e tínhamos sempre a sobremesa que era invariável. Era sempre um doce de batata, o que variava de cor; às vezes era batata branca, à vezes batata roxa, mas sempre doce de batata.

A diversão maior era o futebol. O futebol que era travado com o maior entusiasmo, até com torcida no adro da Igreja, e aí todos nos dividíamos em times antagônicos e cada qual mostrava as suas habilidades, de acordo com as suas aptidões.

Na idade dos seis, sete anos, todos nós íamos para o grupo escolar, naquele regime em que uma professora assumia uma classe logo no início de um exercício letivo e a acompanhava até o quarto ano. Eu tive como professora uma santa criatura: chamava-se Dona Maria de Lourdes Chagas, uma benemérita. Paciente, humilde, de uma dedicação acima de todos os limites. Quando nós não conseguíamos acompanhar o curso que ela dava em aula, ela nos levava à sua casa e lá nos dava a suplementação de que carecíamos, para continuarmos acompanhando o curso ministrado por ela nas aulas.

Era um regime de ensino muito avançado, para os padrões da época. Mas todos estudávamos e todos se preparavam bem. Nunca tivemos, nós, os que estudamos com ela, a menor dificuldade, nem no ensino secundário e nem no ensino superior, porque as bases que ela montou, nos espíritos de seus alunos, eram muito sólidas.

Com ela a gente aprendia o essencial, a preparação intelectual, aritmética, história, os ensinamentos básicos ministrados na época, ela extrapolava o curso. Ela nos dava noções de literatura e nos obrigava a decorar poemas e trechos dos grandes prosadores da época. Isso contribuiu muito para despertar em nossos espíritos o gosto pelas boas letras.
Dona Maria de Lourdes despertava no nosso espírito o gosto pela leitura, o gosto pelo discurso, o gosto pelos debates, pela discussão, ela, sem dúvida nenhuma, muito remotamente não deixava de contribuir para o despertar de uma vocação para a vida pública."

Os pais de Tancredo Neves, Antonina de Almeida Neves e Francisco de Paula Neves, pela ordem tiveram os seguintes filhos: Francisco (falecido precocemente, ao três meses), Paulo, Octávio, José, Antônio, Tancredo, Francisco, Roberto, Mariana, Jorge, Gastão, Esther e Maria Josina.