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ELOGIO A AUGUSTO VIEGAS

BRASÍLIA – 19/10/1973

“Servidor do povo ele o foi, como poucos o têm sido entre nós. Foram 90 anos de dedicação sem reservas, absorvente e absoluta à nossa gente. Viveu esquecido de si mesmo para melhor servi-la. Foi líder sem ódios e sem ressentimentos.”


Discurso do deputado Tancredo Neves em homenagem póstuma ao ex-deputado Augusto Viegas, na Câmara dos Deputados, em Brasília (19/10/1973)


Sr. TANCREDO NEVES – Sr. Presidente, Srs. Deputados, frequentes vezes no curso das legislaturas, corre-me o dever, como representante de meu estado, de ocupar a tribuna da Casa  para o elogio que mereceram os homens públicos de nossa terra, aqueles que já se foram deste mundo, deixando, no entanto, magníficos exemplos dos padrões morais que perfilharam, que lhes nortearam a existência, transformando-os, afinal, em luzes de um roteiro inflexível civismo.


Estas homenagens se enquadram perfeitamente na linha de nossa formação, sempre prontos, todos, ao culto do líder; o tipo em que, em todos os países, se eleva pela circunstância da morte e se converte num patrimônio comum.


Os tributos com que os destacamos, para uma lógica exata, encerram o juízo de uma geração sobre a outra, o pensamento harmônico e uniforme sobre aqueles que puderam, com inteligência e devotamento, dedicar-se inteiramente ao povo, servindo-o, sem dele se servir.

Os homens que se distinguem como expressões de uma escolha popular, selecionados pela única fonte legítima do poder, que é o voto, e se impõem pela nobreza das atitudes, adquirem, é certo, aquele encantamento surgido depois da morte, como dizia Guimarães Rosa, e perdem, por isso mesmo, as características regionais, acabam como expressões nacionais na forma diáfana de uma mensagem.

Este, meus senhores, o caso de Augusto Viegas.

Confesso a V. Exas. que jamais, como em qualquer outro momento de minha carreira parlamentar ou política, senti emoção tão teluricamente forte como esta que ora me domina.

Não me é fácil, sem ferir as fibras mais sensíveis de meus sentimentos, falar sobre esse homem admirável que se chamou Augusto Viegas.

Não me toma, por inteiro, a emoção fugaz de um instante, ocasionada por uma reação de surpresa ou por um impulso genuinamente pessoal: todo o meu ser se exalta agora que aqui venho prantear a figura singular, honesta, sóbria e digna, que já se foi do nosso convívio.

Ao chegar a esta tribuna, que também foi dele, angustia-me a tristeza de o haver perdido, mas consola-me, num olhar retrospectivo, empolgar-me nos exemplos de uma existência tão cheia de ensinamentos e de beleza que veio a constituir a lição imperecível que nos legou.

Conheci Augusto Viegas de perto e muito, na intimidade do seu ser, na fulgência de seu espírito e na pureza dos seus sentimentos, encarnando o vulto invulgar de uma dessas pessoas que, como os cavaleiros medievais, deixavam por onde andassem a marca de seus passos.

À sua sombra eu me criei, admirando-o e me esforçando por imitá-lo, sentindo a cada dia, na sucessão dos anos, a projeção de sua imensa personalidade no cenário e nos acontecimentos que fizeram a História do meu estado nestes últimos decênios.

Antes de ser atraído pela política, exerceu a advocacia com irrepreensível dignidade, extraordinária competência, cultura e devotamento, consagrando-se como um dos mais notáveis profissionais do Direito no seu tempo, em Minas Gerais.

Os seus trabalhos de crítica e interpretação dos fenômenos jurídicos, publicados nas revistas especializadas, granjearam para o seu nome a admiração e o respeito de juristas magistrados, que não raro se valiam de seus estudos para ilustrarem os seus pareceres, arrazoados e julgados.

Orador cintilante, a sua presença na tribuna dos pretórios era sempre um acontecimento marcante nos anais de nossa vida judiciária, em que através da mais alcandorada eloquência ele revelava a esmerada formação e a notável erudição jurídica de um autêntico jurisconsulto.

Foi até às vésperas de sua morte, ao contar 94 anos de fecunda e honrada existência, uma infatigável paladino do Direito, patrocinando a lei com a serena tranquilidade de um sacerdote na prática de um ato litúrgico e reivindicando a justiça com a bravura resignada e silenciosa de um apóstolo a serviço de sua fé.

O Direito nunca foi para ele um expediente, uma rotina ou apenas uma ciência, mas um culto. A justiça, uma religião, e a lei, a sagrada expressão da consciência humana.

Serviu ao Direito, submeteu-se à Justiça e jamais prevaricou em face da Lei.

Mais velho do que o século, Augusto Viegas surgiu para a política no tempo em que Minas resplandecia na vida pública nacional com todo o fulgor da força moral e intelectual de seus filhos ilustres.

Conheceu os altos e baixos da atividade cívica. No poder era humilde, conciliador e humano. Não se deixava dominar pela soberba. Na oposição era digno, viril e intemerato. Não se deixava abater pelos reveses.

No poder ou na oposição era sempre o mesmo homem: íntegro e compreensivo, sem ódios e sem paixões, respeitador e respeitado.

Por isso mesmo, pela sua admirável capacidade de englobar os fatos numa única visão, jamais foi um caráter que se comprazesse com a imposição: mandar, ordenar com autoridade, usar da força, compactuar com arbítrio; não entrava na composição do seu temperamento. Tudo nele fluía de uma excepcional bondade e confluía para uma conciliação bem mineira, feita de prudência, isenção e altiva serenidade.

O seu código de ética se resumia em desprender-se para pertencer à causa, ao amigo, à paixão com que, a uma e a outro, sabia defender. Filosofia cristã que sempre o orientou e o levava a afirmar-se na identificação absoluta com o povo e a terra, a terra do povo, se fixando no complexo de todos os problemas.

A sua atuação na vida pública de nossa Pátria seria, pois, uma imposição de sua consciência. A ela se dedicou incondicionalmente, num devotamente sem tréguas, que nem mesmo o avançado dos anos conseguia arrefecer os seus ímpetos de fé e confiança na grandeza dos nossos destinos.

Constituinte duas vezes: em 1934 e 1946. Deputado em várias legislaturas. Secretário de Estado. Chefe do Executivo do Município de São João del-Rei por longo período, nunca soube distinguir no serviço do povo a hierarquia dos postos e a todos exercitou com a mesma flama cívica, o mesmo senso de responsabilidade e o mesmo ardor democrático.

Parlamentar, sempre se impôs pela austeridade, eficiência e zelo com que cumpriu seus mandatos. A sua contribuição na feitura de duas de nossas Constituições foi das mais expressivas.

Membro da Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados, deixou nos seus pareceres a marca inextinguível do seu talento e a decidida e constante colaboração do seu inigualável espírito público para o aprimoramento de nosso sistema legal, na sua luta incessante em prol da justiça social e da elevação dos padrões morais intelectuais do nosso povo.

Assumindo em fase atormentada a Secretaria das Finanças em Minas, a todos surpreendeu pela atualidade em que tinha os problemas econômicos do Estado. Conhecimentos ecléticos, profundos e bem especificados.

Em poucos dias, preparou um esquema de trabalho que durante muito tempo serviu de suporte à recuperação econômica de Minas. A sua gestão, marcada por decisões e medidas de envergadura, ainda hoje é recordada por sua larga e iluminada visão, os exemplos de resistência na defesa do erário, na invulnerável probidade com que se desincumbiu do pesado múnus.

Servidor do povo ele o foi, como poucos o têm sido entre nós. Foram 90 anos de dedicação sem reservas, absorvente e absoluta à nossa gente. Viveu esquecido de si mesmo para melhor servi-la. Foi o líder sem ódios e sem ressentimentos, o conselheiro de palavra prudente e esclarecida, o mentor seguro e equânime, o amigo inexcedível na lealdade, o primeiro na luta e nas provações, o último nas festas e nos banquetes.

Com a sua morte, quebrou-se uma das mais nobres existências. Era uma imponente estrutura humana, em que não se sabe o que mais admirar, se a harmoniosa coerência entre o pensar, o sentir e o viver ou se a edificante beleza moral que nela se encerra.

A renúncia foi o seu lama e o seu brasão. Podendo ocupar as mais altas posições, sempre as renunciou. Mesmo quando era legítimo reivindicá-las, por modéstia e desprendimento não o fazia. Convocado a ocupá-las, recusava-as, salvo quando a recusa se lhe afigurava uma deserção ao dever. Os bens de fortuna não o fascinavam. A sua provecta existência foi um permanente ato de renúncia. Renunciou a tudo: poder, considerações e riquezas. Só não renunciou à dignidade de sua consciência, que manteve imaculada e inacessível em todos os minutos de sua vida. Com ela não fazia concessões, não transigia e não transacionava. Era o escudo infrangível de sua espartana bravura moral.

No último quartel de sua existência enclausurou-se em São João del-Rei, terra do seu coração e a sua mais enternecida afeição.

Augusto Viegas e São João del-Rei se irmanaram, num símbolo, se fundiram e de tal forma se identificaram que não se sabia ao certo onde acabava e começava Augusto Viegas e a veneranda urbe.

Aquela cidade de poesia e encantamento e a prodigiosa inspiradora de seus atos e está presente em todos os instantes de sua vida.

Em qualquer parte onde esteja não lhe esquece o perfil, recortado pelos morros, pela suas colinas, ou silhueta majestosa de suas igrejas, os casarões repletos de lendas, ou o risco sinuoso e grave de Aleijadinho: procura escutar na hora da procela as vozes dos sinos que ecoam dos seus campanários bicentenários.

A São João del-Rei se entrega com amor apaixonado e ciumento de um romântico ardoroso. Escreve-lhe a história – Notícia histórica de São João del-Rei – trabalho em que o historiador, paciente na pesquisa, honesto na interpretação, fiel aos fatos, corre parelhas com o estilista de frase tersa e cristalina, evidenciando no cronista o primoroso humanista, por sólida cultura clássica.

Nele, a minha velha e sempre nova São João del-Rei se revia orgulhosa de possuí-lo, na inteligência poderosa e fulgurante, no coração, escrínio de santas e heroicas virtudes, e na intrepidez do seu caráter inamolgável.

Deixou gravadas para sempre as garras do seu devotamento em todos os setores do pensamento e atividade que fazem da minha terra uma das mais nobres e belas de nossa Pátria.

Nos seus monumentais templos religiosos, que preservou e engradeceu, nas suas instituições hospitalares, que ajudou e serviu, nos seus educandários, cujos níveis intelectuais tanto elevou, nas suas indústrias, que incentivou e estimulou, nas suas ruas e praças, que urbanizou e embelezou, em suma, a presença do seu espírito é uma constante em todas as iniciativas e movimentos que, nestas últimas décadas, tornaram a cidade de Tiradentes e Bárbara Heliodora mais digna, mais culta, mais bela, mais humana e respeitada.

Nesta hora em que o evocamos com saudade e admiração, nós o veremos, através da perspectivas da morte, nas proporções exatas que sempre indicaram os parâmetros de sua estrutura moral: a decência, a honradez, o amor à causa pública.

E os homens dessa têmpera, no vaticínio do salmista, “não vão todos à sepultura: na memória dos homens vive e dura”. Das suas cinzas fulge a luz que clareia, o exemplo que dignifica e o ensinamento que enaltece.

Augusto Viegas, brasileiro ilustre, mineiro sem jaça, são-joanense impoluto, meu amigo e meu mestre, é desses lumes que jamais se apagarão na lembrança dos que o conheceram e na admiração dos que com ele conviveram.

Ele foi um raro exemplar humano: engrandeceu o nosso estado e honrou a Pátria. (O orador é abraçado.)

Fonte: Perfil Parlamentar: Tancredo Neves. Câmara dos Deputados, Centro de Documentação e Informação. Coordenação de Publicações. Brasília, 2001. p. 387-391