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Estudante de Direito em Belo Horizonte

Depoimento de Tancredo Neves. Do livro "Tancredo Neves: a Trajetória de um Liberal", de Vera Alice Cardoso Silva e Lucília de Almeida Neves Delgado. Editoras UFMG/Vozes. 1985

 

“Eu cheguei a Belo Horizonte em 1926, em condições as mais adversas. Cheguei com 20 mil réis no bolso, que era a moeda naquela ocasião. Procurei uma pensão que me foi indicada na avenida Carandaí. Saí procurando emprego.

O único emprego que eu achei foi um concurso de guarda-civil e, quando me apresentei, o diretor me achou sem condições físicas para exercer a função. Mas como eu falei com ele que precisava trabalhar, ele me pôs na Guarda-Civil como escriturário.

Eu anotava as substituições, as ausências e fazia toda a jogada necessária para manter o serviço de segurança da cidade em perfeita ordem. Lá fiquei durante uns seis ou oito meses. Houve um concurso na Secretaria de Educação. Eu fiz este concurso e fui classificado [enquanto estudava Direito].

Na Faculdade de Direito, não havia naquela ocasião a preocupação ideológica. Um ou outro colega falava nas doutrinas marxistas. Predominava a preocupação literária. Todo mundo era obrigado a ler Anatole France, Machado de Assis, Eça de Queiroz. Mas as leituras substanciais de teoria política ninguém fazia.

Quando muito, lia-se Oliveira Viana, que era na ocasião o grande e o primeiro sociólogo brasileiro a buscar interpretações profundas. Euclides da Cunha era conhecido por muito poucos. No mais era realmente literatura pura e simples, a literatura pela literatura.

Os professores eram exclusivamente juristas e não tinham outras preocupações a não ser ministrar Direito, e foram eles grandes e notáveis professores de Direito. Foi um conjunto notável de mestres, e eu me louvo da plêiade notável de professores que tive. Todos eles sabiam ensinar e sabiam despertar na gente o gosto pelo Direito.

Minha turma [de faculdade] foi chamada até de a ‘turma feliz’. Tive colegas de turma notáveis pelo saber. E seria longo citar o nome de todos eles. Notáveis desembargadores. Cheguei a ter, no tribunal, oito colegas de turma como desembargadores, ao mesmo tempo.”


Depoimento de Tancredo Neves:

Participação na Revolução de 30