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Rumo à projeção nacional

Depoimento de Tancredo Neves. Do livro "Tancredo Neves: a Trajetória de um Liberal", de Vera Alice Cardoso Silva e Lucília de Almeida Neves Delgado. Editoras UFMG/Vozes. 1985


“A posição de liderança na bancada estadual [na Assembleia Legislativa de Minas Gerais] me dava realmente muito acesso à imprensa, rádio, imprensa escrita e isto projetava o nome da gente. Mas eu, que preparei a minha recondução à Assembleia Legislativa, só à última hora tive que preparar a minha eleição para deputado federal porque o nosso candidato tradicional, que era o Dr. Augusto Viegas, à última hora, faltando um mês para as eleições, resolveu não ser mais candidato.


Eu tive que fazer uma campanha apertada e quase não me elegi. Passei a ter voto no Estado todo e o que me elegeu foram justamente estes votos que nós chamamos “pingados”, que vêm de todos os municípios de Minas. Foi uma eleição dura.


Se eu raciocinei primeiro pelo mandato a nível estadual foi mais por motivo de família. As minhas crianças, os meus meninos estavam todos pequenos. Eu já estava instalado em Belo Horizonte. De maneira que mais um mandato de quatro anos para mim, aqui, seria, do ponto de vista, vamos dizer assim, dos interesses imediatos de família, mais conveniente. Mas a política é o destino, você nunca sabe o que vai acontecer.


Na Câmara, eu participei da Comissão de Justiça e da Comissão de Transportes. A Comissão de Justiça era muito política. Eu me lembro bem que um dos casos que naquela ocasião apaixonou a Comissão foi o pedido de licença para processar o deputado Tenório Cavalcanti, que era acusado de homicídios em Caxias.


Depois, foi o grande, o ruidoso caso da Última Hora, objeto de nova Comissão Parlamentar de Inquérito, o começo da grande crise que afetou de perto a estabilidade do governo Vargas. A Última Hora surgiu como grande sucesso, teve uma repercussão de opinião pública enorme. Todos os órgãos de imprensa da época se somaram contra a Última Hora. A Comissão Parlamentar de Inquérito teve uma tramitação muito tumultuosa, além da repercussão que davam aos trabalhos pelo rádio, pela televisão, pela imprensa escrita. Todos querendo a liquidação da Última Hora.


Eu fui para a Comissão de Transportes porque o [governador] Juscelino Kubitschek me incumbiu de fazer a reversão da Rede Mineira de Viação para o governo federal, esta que hoje é a Rede Ferroviária Federal. Um problema agudo para o Estado. As greves se repetiam muito em razão dos atrasos nos pagamentos. O Estado não tinha recurso nenhum, nem para aparelhar a estrada, nem para mantê-la. De maneira que a minha primeira missão política foi justamente esta. Eu consegui e, antes do meio do governo Juscelino, ele já estava livre deste ônus.


[A Câmara dos Deputados ampliou muito a minha] visão do que era o Brasil e dos grandes problemas do Brasil na época. A Câmara dos Deputados é realmente o maior laboratório para formação de uma mentalidade brasileira. Você é obrigado a conviver com parlamentares de todos os Estados e a conviver com todos os problemas dos Estados, trazidos ou nas comissões ou no plenário, através da palavra desses deputados. O entrosamento entre sulistas, centristas e nordestinos se faz diariamente através da dinâmica do próprio Parlamento.”

 

Depoimento de Tancredo Neves:
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