Você está aqui: Biografia

A amizade com Getúlio Vargas

Depoimento de Tancredo Neves. Do livro "Tancredo Neves: a Trajetória de um Liberal", de Vera Alice Cardoso Silva e Lucília de Almeida Neves Delgado. Editoras UFMG/Vozes. 1985


“Em 1951, quando Getúlio Vargas organizou seu primeiro ministério, procurou fazer um ministério experiente. Mas era um ministério que negava a política de Vargas. Vargas fazia uma política populista e o ministério era, como se chamava na gíria de imprensa na ocasião, o Ministério de Tubarões.


A presidência do Banco do Brasil estava com Ricardo Jafet, na ocasião, a maior potência industrial do Brasil. O Ministério da Fazenda estava com Horácio Lafer, a maior potência financeira de São Paulo. O Ministério da Educação estava com o Simões Filho, que era o rei do cacau. O Ministério da Agricultura estava com João Cleofas, o rei do açúcar. Num determinado momento, Vargas sentiu que era inviável continuar com aquele ministério.


Meu nome surgiu para ministro porque eu defendi o primeiro veto de Getúlio Vargas. Ninguém queria fazê-lo. Vargas, quando ditador, criou o cinturão verde em redor do Rio de Janeiro: uma área de produção para abastecimento. O cidadão recebia o lote, que só podia passá-lo para os seus herdeiros. Ele não podia vender aquilo.


Formou-se uma campanha muito forte, para suprimir essas classes, para possibilitar realmente grandes transações imobiliárias. Os interessados na venda das terras conseguiram, no fim do governo de Eurico Dutra, que esse projeto de lei fosse aprovado.
 


Vargas encontrou o projeto em condições de ser sancionado. Ele então vetou. Vetou bem, vetou com razão, vetou com justiça. Mas como era o primeiro veto do Vargas, a UDN se mobilizou para derrotá-lo. A derrota num veto do presidente seria realmente uma grande vitória udenista. E havia pressões de interesses econômicos muito fortes em torno do assunto. A imprensa estava desorientada, não encontrando ninguém para defender o veto.


Eu me convenci que o veto era justo. Falei com ele: eu vou defender este veto. Um veto que todo mundo pensava que seria derrotado, acabou sendo vitorioso. Vargas ficou agradecido, me chamou para conhecê-lo pessoalmente. Tivemos uma conversa longa. Ficamos amigos. De vez em quando ele me chamava no Catete para assistir um cinemazinho com ele.


Quando da ocasião da reforma ministerial, eu fui a um despacho coletivo com Vargas e ele falou comigo:

— Eu estou pensando em mudar o ministério que está aí. O que você acha? 

— Já devia ter feito há mais tempo. O senhor faz um governo populista, mas está governando com ‘tubarões’. 

— Nunca ninguém me falou isso.

— Mas eu estou lhe falando, o senhor está pedindo. Tem que mudar. Não adianta mudar homens se o senhor não mudar a política. Se for para fazer essa política que está aí o senhor encontra melhores homens do que esses que estão aí. Mas se é para mudar, o senhor tem que mudar também esse ministério.

— Ah, está certo. Olha, queria que você fosse o meu ministro da Educação.

— Pois muito bem. Se é para colaborar, eu colaboro.


Mas quando ele falou com o [governador] Juscelino Kubitschek em Ministério da Educação, o Juscelino reagiu muito e pediu o Ministério da Justiça, porque era um ministério político. A mineirada dava uma importância enorme ao Ministério da Justiça. O Juscelino disse que, na hora da escolha de nomes, eles começaram [a examinar a lista de deputados] pela ordem alfabética. Na relação dos deputados eu era ‘T’. Quando chegou no ‘B’, o Juscelino olhou a lista e disse:

 — Oh, Senhor Presidente, vamos logo chegar ao assunto. É o Tancredo?

— É ele.

— Então vamos poupar trabalho. Eu fico muito contente com a indicação, ele é meu amigo.

— Então, o senhor fica autorizado a convidar o Dr. Tancredo.

Ele me convidou e eu fui ministro.”

 

Depoimentos de Tancredo Neves:
A crise que levou Vargas ao suicídio