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Participação na Revolução de 1930

Depoimento de Tancredo Neves. Do livro "Tancredo Neves: a Trajetória de um Liberal", de Vera Alice Cardoso Silva e Lucília de Almeida Neves Delgado. Editoras UFMG/Vozes. 1985

“Minha geração foi marcada pelo espírito da Revolução de 30. Quando nós estávamos no ano de 1927, a Revolução já era pregada abertamente. Lembro-me bem de que eu participei de diversas caravanas que percorreram o interior de Minas, pregando a Revolução de 30.

Era a pressão do ambiente mineiro. Minas sob a liderança do governador Antônio Carlos Ribeiro de Andrade, que era uma figura fascinante, resolveu tomar uma posição de renovação da mentalidade dos processos políticos brasileiros, através da candidatura dele à Presidência da República. Ele rompeu com os parâmetros políticos dominantes da época e passou a pregar e atuar numa ação manifestamente revolucionária.

A campanha do voto secreto [defendido por Antônio Carlos] foi um espetáculo bonito aqui em Belo Horizonte. Ela foi implantada em primeiro lugar aqui e houve uma disputa muito bonita nas eleições para prefeito de Belo Horizonte.

O candidato Magalhães Drummond era nosso professor e era apoiado pelos estudantes de Direito, de Medicina e de Engenharia. Pelo simples fato de ser ele um universitário, ele carreava a simpatia de toda a juventude. E nós fizemos uma campanha aqui, memorável, para a época. Sacudimos a cidade toda e tornamos vitorioso, através do voto secreto, o professor Magalhães Drumond.

Eu participei do grupo de estudantes que pregavam a Revolução de 30. Nós saíamos com pastas fornecidas pelo governo do Estado, percorrendo todas as cidades mais importantes de Minas. Éramos doze ou treze estudantes. Nós percorremos o Estado de Minas todo, sobretudo a Zona da Mata.

Eu não estive nos bastidores, eu participei de todos os movimentos, mas nas reuniões, nas faculdades, nos comícios, nas viagens pelo interior. Eu participei um pouco porque em mim já se havia formado o espírito da necessidade da revolução. E em segundo lugar porque participando do movimento havia oportunidade de treinar a oratória, a gente se divertia e até brincava muito nestes passeios. Havia um pouco de ‘estudantada’ nestas coisas.

Aqui, em Minas, nós não encontrávamos muito resistência para nossa pregação. Todo mundo era revolucionário. Nós tínhamos todo o mundo do nosso lado, em qualquer lugar aonde íamos éramos muito bem recebidos. Discursos, comícios, almoços, jantares, passeios, bailes, moças, essas cosas todas tornavam aqueles dias muito divertidos.
No dia em que foi deflagrada a Revolução, apresentei-me para prestar serviços à causa revolucionária. Nessa hora eu estava com Cristiano Machado, que era o secretário de Interior e Justiça do Estado de Minas Gerais, e era quem coordenava a Revolução em Minas.

Ele nos entregou, a mim e a mais outros companheiros, a missão de tirarmos de um orfanato que ficava ali perto do 12º Regimento de Infantaria os menores que ficavam lá soltos e as meninas que lá estavam. Nos deu caminhões e nos deu apetrechos para cumprirmos a missão.

Achei que estava salvando a pátria e fui com os outros colegas até lá recolher estas meninas. O orfanato ficava justamente entre o 12º Regimento e a situação de entrincheiramento, onde já estavam as forças. Na linha do tiro. Fogo cruzado. Prestamos aquele serviço. Diversas viagens, para distribuí-las aí por outros orfanatos, por outros colégios.

Acompanhei o movimento todo aqui. Assisti a toda aquela troca de tiros entre o 12º RI e os situacionistas. O 12º Batalhão de Infantaria teve uma resistência belíssima. Uma das mais belas páginas da vida militar do Brasil. Foi realmente uma resistência épica. E fui um dos primeiros que entraram no quartel do 12º, depois que ele caiu, com o espírito assim de euforia da vitória, do triunfo, e de lenço vermelho, aquelas coisas todas que se usavam na época.

A Revolução de 30 liquidou os velhos partidos e as velhas siglas. Houve em Minas duas tentativas de se organizarem novos partidos políticos. Uma delas reuniu um grupo chamado de os ‘camisas-cáquis’, uma tentativa de legião fascista tipo cabocla que não foi à frente. Logo depois, criou-se um partido político, o PP, chamava-se Partido Progressista. Eu era promotor de justiça em São João del-Rei e ajudei a organizar este partido.

Em minha terra, o PP tinha liderança de um político de excepcionais virtudes cívicas e intelectuais. Um grande homem de bem, pelo sacrifício que ele se impunha, um republicano mesmo de cepa que era Dr. Augusto Viegas. Em 1935, pleiteei uma cadeira de vereador por este partido. Logo no início do meu mandato, fui eleito presidente da Câmara dos Vereadores e presidia suas sessões. Era uma câmara ilustre, composta por quinze vereadores. Havia médicos, advogados, dentistas, fazendeiros, todos de alto nível intelectual.

Com o golpe de 1937, foram fechadas todas as casas de representação popular. Então houve um encerramento nas atividades parlamentares. O Senado, a Câmara dos Deputados, as Assembleias Legislativas e todas as Câmaras Municipais foram fechadas, naquela ocasião. No dia 11 de novembro de 1937, se não me trai a memória, quando foi deflagrado o golpe que implantou o Estado Novo, presidi a seção da Câmara e sempre presido com muita austeridade. A Câmara foi fechada e eu me afastei da vida política até 1945.”

 

Depoimento de Tancredo Neves:
Estudante de direito em Belo Horizonte