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Cineasta Silvio Tendler diz que filme sobre o político será “impactante”

Jornal “Hoje em Dia” - 04/02/2010


PAULO HENRIQUE SILVA
REPÓRTER


Minutos antes de entrevistar o governador Aécio Neves no Palácio das Mangabeiras, no final da tarde de ontem, o documentarista Silvio Tendler atende a reportagem do HOJE EM DIA ainda meio ressabiado – na dúvida sobre confirmar os motivos da presença na capital mineira. O número do celular é do Rio de Janeiro, onde tem residência, e o diretor de “Os Anos JK” e “Jango” brinca com o fato: “Estou falando do Rio em Belo Horizonte”. A razão de sua vinda é o filme “Tancredo, a Travessia”, sobre o político mineiro Tancredo Neves, avô de Aécio.


O depoimento do governador de Minas Gerais, assim como o de sua irmã Andrea Neves, é um dos principais pontos do documentário, já que o neto o acompanhou bem de perto os últimos anos de vida e ação política de Tancredo, certamente, também será um dos mais polêmicos.


A exemplo do que aconteceu recentemente com “Lula, o Filho do Brasil”, os críticos enxergarão no filme uma ferramenta de campanha eleitoral. O lançamento será em março, mês do centenário do político, ou abril, quando serão lembrados os 25 anos de sua morte. Ou seja, antes das eleições de outubro.


“Não posso impedir este tipo de leitura. O que costumo dizer é que um filme não elege presidente da República. Um filme revela o político e sua história. O público de cinema político é relativamente baixo e se algum candidato investe num filme com este propósito, está gastando dinheiro à toa. Aécio não é bobo. Ele herdou do avô o talento e o gosto pela política. E está tratando o filme como uma homenagem sincera ao avô”, observa Tendler. O cineasta acredita que seu longa-metragem tem potencial suficiente para alcançar o mesmo número de espectadores de “Lula”, hoje na casa dos 800 mil. “O público de cinema político é esse. Por isso a cinebiografia sobre o Lula não é o fracasso como andam dizendo. Tem o tamanho real de um filme político e o nosso trabalho deve chegar perto disso, porque será impactante”.


O impacto esperado pelo experiente documentarista está baseado em fatos contundentes envolvendo os bastidores da política, a partir de levantamento feito pelo pesquisador José Augusto Ribeiro, que foi porta-voz de Tancredo quando da candidatura à presidência, em 1984, e há 20 anos vem reunindo material para o livro que já conta com mil páginas.


“Não conhecemos os mecanismos da política. Só sabemos da política de fachada. Como dizia Castro Alves, o povo tem mais sentimento do que ideia. As pessoas votam com emoção. Muitas vezes ganha o político que, na reta final, traz um fato novo que mexe com a emoção das pessoas. Mas a política é mais sutil do que isso. Há acordos, alianças e negociações que nunca vêm a público”.


De acordo com Tendler, “Tancredo, a Travessia” mostra estes dois lados. O da emoção, quando a população acompanhou as eleições (indiretas) com o mesmo interesse de quem está botando o voto na urna. “Era como se estivessem dando um chega para ditadura” – e o do jogo político, ou como Tancredo, então governador de Minas Gerais (eleito em 1982), conseguiu quebrar a espinha dorsal dos militares.


“Ninguém esperava que a candidatura de Tancredo, logo após os movimentos de Diretas Já terem fracassado, obrigasse a ditadura a se mobilizar e sofrer um racha interno, com dissidentes de PDS o apoiando. Se chegasse um marciano no planeta e visse a foto inaugural do governo, em que aparecem ACM (Antônio Carlos Magalhães) e Marco Maciel, figuras principais do regime, não acreditaria que não houve oposição”, destaca o documentarista.

 

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PAULO HENRIQUE SILVA
REPÓRTER


Com o filme “Tancredo, a Travessia”, o diretor Silvio Tendler está fechando a sua trilogia presidencial. Ela começou em 1980, com “Os Anos JK, uma Trajetória Política”, sobre o também mineiro Juscelino Kubitschek, e, quatro anos depois, ganhou um segundo capítulo com “Jango”, focando João Goulart, presidente que sofreu o golpe militar de 1964. Os dois longas estão entre os três documentários mais vistos da história do cinema brasileiro – “Jango” levou um milhão de espectadores às salas de exibição, enquanto “Os Anos JK” arrebanhou 800mil.


Tendler enxerga “uma grande ponte que junta este trio”, através da figura de Getúlio Vargas, mandatário do Brasil por duas vezes (1930-1945 e 1951-1954). “Em três momentos diferentes de nossa história política, cada presidente mostrou uma faceta de varguismo. O Tancredo, principalmente, foi ministro da Justiça de Getúlio e foi profundamente leal a ele até os últimos momentos, deixando-se pautar por ideias desenvolvimento nacional criado pelo estadista”, registra.


JK, lembra Tendler, foi muito próximo de Getúlio quando era governador de Minas, e seu Plano de Metas (já presidente) teve bases assentadas na era Vargas. Jango também foi herdeiro, através da vertente da justiça social.


“O nome de Tancredo está ligado à reconstrução da democratização do país. Ele pega um país em frangalhos e dá um novo visual democrático. Tudo o que tem de bom hoje no Brasil vem desta época”, salienta Tendler.


O documentarista observa que o mais impressionante da campanha presidencial de Tancredo, que não chegou a tomar posse, devido a uma diverticulite que o matou em 21 de abril de 1985, é o fato de montado uma transição pacífica, sem traumas.


“Isso aconteceu porque ele era uma pessoa extremamente confiável. Tanto a direita como a esquerda sabiam que a democracia avançaria e que não haveria revanchismo. Ele foi uma espécie de avalista, que funcionou mesmo não tomando posse, pois o acordo foi mantido e o Brasil se tornou a grande nação democrática que é graças a essa articulação”.


A vida de Tancredo é esmiuçada desde seu nascimento, em 4 de março de 1910, em São João Del Rei, passando pelo advogado e homem de negócios. A carreira política tem início como vereador na terra natal e prossegue como deputado estadual, deputado federal, ministro da Justiça de Getúlio e primeiro-ministro de Jango.


Tancredo se tornou opositor moderado do regime militar até se filiar ao MDB, reelegendo-se deputado federal e depois senador. Nos anos 1980, foi eleito democraticamente governador, interrompendo seu governo para lançar a candidatura à presidência da República, vencendo Paulo Maluf, do PDS.


O foco principal é o movimento das “Diretas Já” e o da campanha presidencial, de 1983 a 1985. “Foram três anos muito férteis”, destaca o documentarista.


“Seu compromisso era com a legalização dos partidos clandestinos, a convocação da Assembleia Constituinte, da realização das Diretas Já e da reconstrução da economia nacional. E sacrifica a própria vida para colocar isso em prática. Tancredo sabia que estava doente e que tinha que se cuidar, mas prevaleceu a teimosia política”, afirma.


Tendler destaca que “Tancredo, a Travessia” não é um filme “chapa-branca”. Ele teve total liberdade para procurar até mesmo os adversários políticos do político mineiro. Gente como o deputado Jarbas Vasconcelos, que era do MDB e preferiu não votar em Tancredo para presidente. Tendler gravou depoimentos de artistas que participaram dos comícios das Diretas Já e apoiaram o político são-joanense. Entre eles, estão os mineiros Wagner Tiso, Milton Nascimento, além de Fafá de Belém e Maitê Proença.



Publicado no jornal “Hoje em Dia”, em 04/02/2010