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A crise que levou Vargas ao suicídio

Depoimento de Tancredo Neves. Do livro "Tancredo Neves: a Trajetória de um Liberal", de Vera Alice Cardoso Silva e Lucília de Almeida Neves Delgado. Editoras UFMG/Vozes. 1985


“Em 1953, eu recebi o Ministério da Justiça já no começo da crise que iria ter o seu desfecho no suicídio de Getúlio Vargas. O período de crise começou com os problemas da Última Hora, cuja Comissão Parlamentar de Inquérito ainda não tinha concluído os seus trabalhos.


Eu tive que enfrentar o problema na sua fase final, para não só precipitar e acelerar os trabalhos da comissão, como depois fazer face às consequências dos trabalhos da comissão. Mas já era o começo de uma agitação muito séria. Eu mantive o Estado e o país em perfeita ordem. As instituições funcionando em toda a sua plenitude.


O caso da Última Hora já estava totalmente superado, quando começou a ascensão do Carlos Lacerda no Rio de Janeiro. O lacerdismo começava a ganhar relevo, ganhar volume e ganhar força. Ele falava em clubes, colégios e associações e a pregação era sempre a mesma: a necessidade de derrubar.


Até que veio um belo dia e ele me pediu garantias pessoais para continuar o exercício do que ele chamava de suas atividades democráticas. Eu dei a ele a garantia, pedi a ele que escolhesse os policiais da confiança dele. Ele escolheu os policiais da confiança dele. Mas alguns dias depois recebo notícias que ele estava sendo acompanhado por oficiais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, nestas suas andanças pelo centro do Rio e pelos seus bairros.


Veio o caso deplorável da rua Toneleros. Um dos homens que acompanhava Lacerda, o major Vaz, foi alvejado por um pistoleiro que estava nas imediações do apartamento de Lacerda e vinha com disposição de eliminá-lo. O fato é que daí a Nação, até então em plena calma, se transformou bruscamente numa nação profunda conturbada. A Aeronáutica se rebelou, criando ali um regime à margem da lei, do governo, das autoridades, a famosa República do Galeão.


As reuniões nos clubes militares se faziam seguidamente, até que, num determinado momento, o Vargas sentiu que era preciso uma reação. Mas já era tarde. Desde o primeiro momento da crise eu o adverti de que a situação era grave e de que ele tinha que tomar providências enérgicas. Ele não só não as tomou como não deixava ninguém tomá-las.


A ordem pública para ele tinha que ser mantida de qualquer maneira. A Constituição tinha que ser respeitada. Mas ele tinha contra si a unanimidade da imprensa escrita no país, numa campanha feroz. A mais violenta que um homem público já experimentou no Brasil.


Quando surgiu o primeiro Manifesto dos Brigadeiros pedindo a renúncia dele, era o momento que ele tinha para passar para uma contraofensiva. Ele então reuniu os ministros militares. Os ministros militares desaconselharam qualquer repressão, qualquer medida punitiva. Diziam que aquele manifesto não tinha importância nenhuma, que cairia no vazio. Meu parecer era de que era chegado o momento de um posicionamento mais enérgico. Mas ele preferiu ficar com a opinião dos generais, sobretudo do general Zenóbio da Costa.


O fato é que na semana seguinte surgiu o Manifesto dos Almirantes, na mesma linha do Manifesto dos Brigadeiros. Aí a coisa se agravou precipitadamente, Getúlio convocou uma reunião ministerial à noite para uma tomada de posição. Mas já a esta hora, dezoito generais também lançaram manifesto de solidariedade aos brigadeiros e almirantes e o governo se sentiu impotente para tomar as medidas necessárias ao estabelecimento da disciplina e da ordem constitucional.


Se Getúlio tivesse, naquela ocasião, seguido o meu conselho e solicitado ao Congresso o Estado de Sítio, a crise teria sido aplacada, e o simples fato dele solicitar a decretação do Estado de Sítio, a imprensa e os parlamentares mais exaltados ficariam mais dóceis, mais prontos ao entendimento. E a repressão no meio militar seria muito mais eficiente. Bastava que Getúlio pedisse o Estado de Sítio e pusesse a tropa na rua. Era o bastante para ter restaurado a sua força naquele momento.”

 

Depoimentos de Tancredo Neves:
A amizade com Getúlio Vargas