Você está aqui: Charges Caído do Céu

Ronaldo Costa Couto


Rio de Janeiro, 25 de maio de 1983, posse do jornalista Carlos Castello Branco, o Castellinho, na Academia Brasileira de Letras. O caricaturista e chargista Chico Caruso se encontra com o governador Tancredo Neves:


— Sou o Chico Caruso, do Jornal do Brasil.
— Ah, você é muito bom quando faz os outros. (Risos)


Desde o Império, o Brasil tem sido muito bem servido nessa área. Muitos consideram J. Carlos o maior caricaturista e chargista da primeira metade do século vinte. Não me sai da cabeça seu cartum do velho presidente Hermes da Fonseca, farda de marechal, a espada de um lado, a jovem noiva, Nair de Teffé, do outro, e a legenda: “O marechal entre duas virgens”.


Nem a magia de Ziraldo, como na charge do final de julho de 1981 sobre a frustrante conclusão do Inquérito Policial Militar do atentado do Riocentro. Ele escancarou o espanto nacional assim: “Oh!”


Ou o gênio do também mineirim Henfil, meu querido amigo e companheiro de faculdade, em Belo Horizonte. Final de 1965, eleição do governador de Minas. A maioria dos estudantes via a vitória do pessedista Israel Pinheiro como uma pancada na ditadura. Henfil, sempre crítico e desconfiado, pensava o contrário. Insistia na tese com os colegas, quase sem sucesso. Certo dia gritou sua cisma no jornal: um bonequinho de Israel de pé sobre a mesa e o marechal-presidente Castello Branco escondido, dando corda nele


Pencas de talentos. Uma prova? Este livro, caro leitor. Suas charges iluminam a história do período, sintetizam o sentimento popular e a alma brasileira, mostram um pouco de Tancredo e de sua guerra pelo Brasil.


O são-joanense parecia caído do céu para a caricatura e a charge: o rosto expressivo, nariz característico, os olhos miudinhos e brilhantes, queixo marcado. A calvície exuberante, a discreta papadinha, o corpo magro e pequeno, o sorriso largo e fácil. E mais de 50 anos de serviços prestados ao País. Coragem, coerência, habilidade política, paciência de pescador mineiro. Sagacidade, presença de espírito, capacidade de combinar seriedade e alegria. Parecia o avozinho esperto, confiável, amoroso e simpático do Brasil inteiro.


Realmente um prato cheio e saboroso para os cartunistas, sobretudo no governo de Minas e no crepúsculo da ditadura militar. Representava a esperança, a luta do bem contra o mal, a vontade popular de mudança, o líder tão sonhado e esperado. Contraponto do autoritarismo e, ao mesmo tempo, expectativa de travessia pacífica e segura para a democracia. Brilhou no governo de Minas, nas Diretas Já do início de 1984, na engenhosa e custosa definição do candidato das oposições, na complicada e impecável postura política de sua eleição em 15 de janeiro de 1885, e como presidente eleito.


Depois, até as charges ficaram tristes. Como numa tragédia grega, a internação hospitalar na véspera da posse e o polêmico e desastrado tratamento. A cirurgia concluída a sete horas da posse no Congresso Nacional, a infecção, a segunda cirurgia, hemorragia interna, a que fez o Brasil chorar e pôs nas ruas a maior multidão que São Paulo já havia visto.


Uma de minhas lembranças fortes dessa rasteira que o destino deu nos brasileiros é um desenho de Millôr: o Brasil, enorme floresta, e, estendida no chão, uma árvore linda, frondosa, gigantesca, a mais alta de todas. Tancredo.


Ronaldo Costa Couto, economista e escritor, doutor em história pela Sorbonne (Paris IV), amigo pessoal de Tancredo Neves, foi seu secretário de Planejamento no governo de Minas. Ministro do Interior, governador de Brasília e ministro-chefe do Gabinete Civil da Presidência da República (governo Sarney).