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DRUMMOND: MINAS GERAIS E A POESIA

BRASÍLIA – 01/12/1972

“Foi dentro de Minas, na sua Itabira férrea, que se galvanizou seu universalismo, com uma dimensão que abrange todos os sentimentos, capta os movimentos do mundo e os transforma em poemas que encantam, comovem e consolam.”


Discurso do deputado Tancredo Neves em homenagem ao septuagésimo aniversário de Carlos Drummond de Andrade, na Câmara dos Deputados, em Brasília (01/12/1972)


O SR. TANCREDO NEVES – Sr. Presidente, Srs. Deputados, o septuagésimo aniversário de Carlos Drummond de Andrade passou sem que a Câmara dos Deputados se somasse às celebrações que, em todos os quadrantes da Pátria, lhe foram prestadas. As últimas eleições, levando os deputados às suas comunas para cumprirem o maior dos seus deveres, qual seja o de propiciar a legitimidade do poder na fonte genuína da vontade popular, esvaziaram a Casa, não lhe permitindo registrar, nos seus Anais, condignamente, o singular acontecimento, tão eloquentemente festejado em todo o País, com justa repercussão além de suas fronteiras.


Redime-se, hoje, da omissão involuntária, destinando-lhe esta sessão de homenagem. Não fora assim e a Câmara dos Deputados se situaria no desapreço da inteligência brasileira e, o que é pior, teria cometido inqualificável atentado à nossa cultura.


Nunca fui e não sou dos raros privilegiados que participam do convívio de Carlos Drummond de Andrade. Não o conheço, nem mesmo de um encontro fortuito ou de um aperto de mão convencional. Para ser mais exato – por estranho que pareça – jamais o vi pessoalmente. No entanto, nestes últimos quarenta anos, ele tem sido uma presença constante e amiga para a minha sensibilidade, através de sua obra que admiro e amo, como, de resto, acontece com toda minha geração, tocada pelo ímpeto contundente de sua poesia, e estranha e misteriosa, em que tumultuam, na sua grandeza e miséria, os mais profundos e desconcertantes sentimentos humanos, poesia que faz dele o maior dos nossos poetas vivos. Sua mensagem, que empolga pela sua beleza e fascina pela força de sua filosofia, arrebata espíritos e corações, no verso denso e escorreito, na conciliação do local com o universal, do terno com o trágico, da ironia sem ódios com a generosidade sem pieguice, porque ele sempre foi e é, acima de tudo, humano, profundamente humano.


Saudamos em Carlos Drummond de Andrade não apenas o artista intenso e justamente celebrado, onde haja espírito sensibilidade, mas igualmente o homem admirável, digno e reto, que assumiu consigo o difícil compromisso de ser autêntico. Esta fidelidade a si mesmo, esta coerência com seu modo de ser e de agir fizeram dele um modelo de decência, de singular comportamento não só moral quanto estético.


Não sei se será fora de propósito dizer que nós, mineiros, somos, por índole e por natureza, doentiamente barrocos, amando a frase na sua sonoridade, no seu efeito lato, a imagem no seu brilho, a expressão na sua forma e a forma no seu conteúdo. Se é certo que a oratória está em decadência, ela, em Minas, persiste como das condições mais fiéis de nossa cultura. Ouvir um orador é deleite que, lá, nas terras das Alterosas, embora vivamos, numa fase objetiva e acelerada da História, não se despreza. Amamos, é verdade, as tiradas longas, a metáfora, o rebuscado polido da construção. Desde cedo nos acostumamos ao corte assimétrico e floreado que compõe a crista de nossas montanhas. A filigrana nos atenta e atrai.


Domina-nos irresistível vocação artística, que em nós madrugou tão logo nossos antepassados adquiriram a consciência de sua força criadora, quando, então, as Minas exuberantes proporcionavam uma cultura. E, isto, em todos os ramos da arte.


Nas letras cintilavam os vultos da escola mineira, tão vivos de talento, alimentados no classicismo, bebidos no academicismo, pastores bucólicos a vagarem por entre as canharas e as planícies de uma Arcádia imaginária. O nativismo os inspirava e de suas almas simples transbordavam temas genuinamente nossos.


As guerras dos Sete Povos das Missões dão a Basílio da Gama o seu poema Uruguai, enquanto no Caramuru, de Santa Rita Durão, lá está a forte, selvática, nativa beleza de Moema, predecessora, na ordem cronológica de sua irmã, Iracema, a dos lábios de mel. Tão apaixonados nativistas, aqueles cândidos árcades, que trocam a suave convivência com as musas pela incerteza de uma conjuração fatal.


O século de ouro não vê cultivar-se em Minas apenas as letras; suas igrejas, num fervor de fé, enchem-se dos sons de uma música pura, transcendente, das mais belas da época, com nomes que brilhariam nas mais exigentes cortes europeias, nos serões de então, como os de José Emerico Lobo de Mesquita, Marcos Coelho Neto, Francisco Gomes da Rocha e o Padre José Maria Xavier.


Na pintura resplandeceria a encantada capitania das Gerais: suas igrejas, nos seus tetos apainelados, nas suas portas almofadadas, nos seus oratórios esmerados, nos balcões dos púlpitos, conservam as pinceladas de Manoel da Costa Ataíde, até que, afinal, aparece, riscando e esculpindo para a eternidade, o gênio rústico e soberanamente incomparável do Aleijadinho.


Com a literatura, a música, a pintura, a escultura e a arquitetura grave dos nossos monumentos, os mineiros – relevai-me que vô-lo diga – criaram uma civilização perfeita. Nasceria, em consequência, uma mentalidade mineira, e ninguém a encarna com tanta precisão do que esse incrível Carlos Drummond de Andrade.


Nele – atentai para este ponto – não existe um acanhado pensamento provinciano, porque o Drummond de Itabira, o Drummond de Minas, é uma partícula universal da arte. Universal pelo destino, pela consciência e pela vocação.


Foi dentro de Minas, na sua Itabira férrea, que se galvanizou seu universalismo, com uma dimensão que abrange todos os sentimentos, capta os movimentos do mundo e os transforma em poemas que encantam, comovem e consolam.


Drummond resume e sintetiza a atividade mineira na sua essência, na sua razão de ser, de existir e, sobretudo, o que nos parece essencial, o de coexistir. Drummond é essencialmente mineiro e tão apaixonado que Minas surge na sua obra com uma constância comovente, atingindo as proporções de um culto.


Primeiro, Itabira, a evocação, os afetos do coração:


“Uma rua começa em Itabira que vai dar no meu coração.
Nessa rua passam meus pais, meus tios, a preta que me criou.”


Não é só a família que acompanha o poeta na sua saudade. Itabira também, de ferro, nas entranhas e nas calçadas, colocada na parede numa fotografia, o machuca, o fere:


“Mas como dói.”


Drummond universal, vertido em idiomas, lido, comentado em universidades, tema de teses, discutido nas cátedras dos continentes, sente a nostalgia das Gerais, de seus ares, de sua gente, de suas casas, de suas ruas compridas, tortas, e pede:


“Espírito de Minas me visita
conserva em mim ao menos a metade do que fui de nascença e a vida esgarça.”


No "Colóquio das Estátuas", página das mais belas da nossa língua, que as antologias mais exigentes não podem dispensar, retratando, numa conversa fantástica, os profetas que a inspiração divina do Aleijadinho plantou no adro do santuário de Congonhas, como que se interpretando, escreveu:


“Assim confabulam os profetas, numa reunião fantástica, batida pelos ares de Minas. Onde mais poderíamos conceber reunião igual, senão em terra mineira, que é o paradoxo mesmo, tão mística que transforma em alfaias e púlpitos e genuflexórios a febre grosseira do diamante, do ouro e das pedras de cor? No seio de uma gente que está ilhada entre cones de hematita e, contudo, mantém com o universo uma larga e filosófica intercomunicação, preocupando-se, como nenhuma outra, com as dores do mundo, no desejo de interpretá-las, leni-las? Um povo que é pastoril e sábio, amante das virtudes simples, da misericórdia, da liberdade – um povo sempre contra os tiranos, e levando o sentimento do bom e do justo a uma espécie de loucura organizada, explosiva e contagiosa, como o revelam suas revoluções liberais?


São mineiros esses profetas. Mineiros na patética e concentrada postura em que os armou o mineiro Aleijadinho; mineiros na visão ampla da terra, seus males, guerras, crimes, tristezas e anelos; mineiros no julgar friamente e no curar com bálsamo; no pessimismo; na iluminação íntima; sim, mineiros de cento e cinquenta anos atrás e de agora, taciturnos, crepusculares, messiânicos e melancólicos.”


Srs. Deputados, longe de mim a pretensão de fazer, nesta tribuna, a crítica literária e o estudo linguístico da obra do poeta. Tento, apenas, uma homenagem ao homem que se dedicou às letras com a fé de um enclausurado.


Desponta Drummond num instante de transição da inteligência brasileira cansada de imitar, desejosa de libertar-se de regras enfraquecidas, insistindo em ser realmente nacional, e temos, então, o modernismo em todo o seu esplendor.


Foi o iconoclasta arrojado e consciente de velhos tabus literários, investindo, com a temeridade dos pioneiros, contra as fórmulas ocas e os medalhões superados.


“Um autêntico revolucionário – observa Álvaro Lins – que quer permanecer ao mesmo tempo fiel às exigências de sua arte; um ser humano que deseja identificar-se com os problemas populares, sem o abandono de sua personalidade artística, que é de caráter aristocrático.”


A partir de sua estreia, sua posição tem sido uma só, invariavelmente uma: a convicção de que à parte se serve com exclusividade. Daí a justeza do conceito de Péricles Ramos: “A história de sua poesia é a história de uma longa construção.”


E Carpeaux, com sua autoridade imensa, assinalaria:


“Nenhum outro poeta moderno provocou discussão tão apaixonada, seja dos admiradores, que lhe interpretam de maneira diferente a poesia, seja dos ‘conservadores’, que o escolheram como alvo de ataques: discussões que não passam de sintomas de forte influência exercida pela originalidade e personalidade do poeta, hoje quase geralmente reconhecido como o maior do Brasil.”


Em prosa ou em verso, Drummond é o poeta, simplesmente poeta. Qualquer tema burilado pelas suas mãos adquire o tônus que emociona e o brilho que deslumbra:


“Cantiga do amor sem eira
nem beira,
vira mundo de cabeça
para baixo,
suspende as saias das mulheres,
tira os óculos dos homens,
amor, seja como for,
é o amor.”


Dos temas mais simples, ele passa às construções que arrebatam pela imponência e a grandiosidade do belo, diluídas no sofrimento, argamassadas na tragédia ou ungidas de ternura e revestida de calor humano, que rompe de seu coração, como lavas de um vulcão.


Sua poesia, às vezes, à primeira vista, assusta:


“Tinha uma pedra no meio do caminho...”


Um minuto depois, acabamos todos, afinal, por compreender que na vida de cada um há sempre uma “pedra” que se lhe esbarra pelo caminho, angustiando-o, fazendo sofrer, gerando-lhe frustrações, trazendo-lhe a agonia dos sonhos desfeitos ou dos ideais mutilados. Por isso mesmo, vão se fixar na vida de todas as “retinas tão fatigadas”.


“Ele, escreveu Vinícius de Moraes, é o único poeta brasileiro de dimensão universal. Isto faz dele... nosso maior poeta de todos os tempos, não só pela importância do que ele diz, como pela nitidez com que ele vê... é o poeta da recôndita ternura... Carlos Drummond: um diamante cujo carvão ainda alumia do íntimo, a ternura humana ao mesmo tempo ardente e fria.”


Em prosa a sua fecundidade espanta através de assuntos que sua mão de mestre remoça com agilidade, indo buscá-los no cotidiano, dando-lhes uma graça que cativa e encanta.


Escreve ensinando. O seu estilo terno, seco e preciso reflete, na sua pureza, a sua individualidade sem trincas. Capta, de relance, no tumulto febricitante da vida moderna, os aspectos mais salientes das ocorrências, no que têm de dramático ou de risível, para reprová-los e condená-los no vigor de sua pena molhada em sangue ou para provocar o sorriso e a galhofa, quando ridículos.


Sua condenação constrói e sua ironia não fere, porque desprovida de crueldade.


É, sem favor, o píncaro mais alto e solitário de nossas letras.


Tristão de Ataíde, que todos veneramos, não sabe onde começa o poeta e acaba o prosador: “Tanto é mestre no verso como na prosa”.


Bandeira – e basta o nome – tão estremecidamente nosso, irmão também de Drummond, modestamente diz:


“Para dizer a verdade
o nome que invejo a fundo
é o de Carlos Drummond de Andrade.”


No poema de abertura de seu primeiro livro, Drummond imagina ouvir a voz fantástica de um anjo, que, por ser torto, só poderia estar desgarrado do bando celeste, a lhe recomendar:


“Vai, Carlos, ser gauche na vida.”


Felizmente, o anjo falou por conta própria e errou no seu prognóstico. “Essa ordem, acentua Josué Montelo, o mestre, na realidade, não construiu, antes, esplendidamente, a contrariou, na unidade de uma existência vitoriosa, toda ela consagrada à sua vocação literária.”


O poeta, em verdade, nunca foi um gauche. As matrizes do seu talento de predestinado, ao invés de gaucheries, deu-nos obras-primas, com a irradiação e o fascínio das estrelas e, como as estrelas, com um brilho que jamais se apagará.


O analista frio, o implacável racional que ele é, não conseguem eliminar do seu ser o capital imenso – o único que possui – de compreensão, ternura, esperança, beleza, humanidade e justiça...


Sem qualquer contrafação, cedendo apenas à espontaneidade de sua natureza, pôde cantar:


“Mundo vasto mundo
mais vasto o meu coração.”


Nestes versos simples e despretensiosos, talvez sem o saber, ele fundiu, no ouro da sinceridade, sua legenda mais bela.


Personalidade a mais forte de nossa poesia no cenário da literatura universal, expressão “mais única do que rara” do mundo intelectual brasileiro em todos os tempos, mineiro da melhor cepa, é para ele que voltamos, nesta hora em que o sol parece haver se eclipsado para as terras das Gerais:


“Minas
teimoso lume aceso
mesmo sob cinza,
Minas Acesita
Minas Usiminas
Minas Ipatinga
Minas felina
a custo ensaiando
o salto da serra
bem alto,
o romper das algemas
mais férreas que o ferro,
no rumo certeiro
do Intendente Câmara
Minas que te miro
desprezando os prazos
de imemoriais atrasos
de leve batendo à porta
da era espacial,
Minas tório urânio
Minas esperança
Minas detectando
o sinal
sob a tibieza dos homens
e o parangolé da retórica
Minas mineiralmente
Geral Gerais
auriminas
turmalinas
diamantiminas
muito abaixo da mais uterina
Minas recôndita
luzindo
o cristalino espírito de Minas.”


Num dos seus versos, o altíssimo poeta, como que se tranquilizando, disse:


“Meu verso é a minha consolação.”


Nós sabemos, acatamos e respeitamos, mas deixai-nos dizer:


“Teu verso é a nossa alegria.”


Gilberto Freyre disse, com exatidão:


“Cabe ao Brasil reconhecer a grandeza de seus homens incomuns e proclamá-la. Dar graças a Deus por lhe ter dado um Carlos Drummond.”


A ele, pois, a calorosa e sincera homenagem da Oposição nesta Casa, a voz pobre, apagada e oprimida do Movimento Democrático Brasileiro, que se ajunta ao coro das vibrantes comemorações que, ao ensejo da estupenda juventude dos seus 70 anos, orgulhosa e reconhecida, lhe presta a Pátria por ele engrandecida.
(Muito bem! Muito bem! Palmas. O orador é cumprimentado.)

Fonte: Perfil Parlamentar: Tancredo Neves. Câmara dos Deputados. Centro de Documentação e Informação. Coordenação de Publicações. Brasília, 2001. p. 380-386