Você está aqui: Livros Tancredo: o homem, vida e adeus

Jota Dangelo

O homem


Fez-se assim: com raízes fincadas na tradição da barroca São João del-Rei, infância e adolescência plasmadas no exemplo materno de determinação e caráter. Sobejou-lhe a veneração por rituais litúrgicos, dobres de sinos, perfume de incenso e rosmaninho, austeridade de confrarias e irmandades, sonoridade de orquestras sacras bicentenárias, oratória de pregadores eclesiásticos de inconfundível poder de aliciamento místico.


Moleque como tantos, franzino, de olhos atentos, mas de reações comuns a todas as crianças, como quem percebe que a melhor parte da vida é ser menino.


Formou-se assim: na austeridade de educandário franciscano, no despojamento e humildade dos seguidores de Assis, de quem seria devoto e irmão de hábito. Formou-se assim: no respeito às diferenças étnicas, econômicas e sociais, ele mesmo oriundo de camadas remediadas, 11 irmãos, mãe viúva precoce, de coração generoso e rigor moral, o que não lhe impediu de viver intempéries e bonanças da mocidade, andanças notívagas, serenatas românticas, prazeres físicos do esporte. Nada diferente de tantos.


E tão indeciso como muitos em relação ao futuro. E tão sonhador como todos, que sonhar é jeito de viver, motivação e estímulo, ainda que acordar seja recorrente e inevitável.


Nem nunca dono de seu destino. Pretendeu primeiro dominar os mares. Queria a vastidão verde-anil, velejar. Arrancaram-lhe os remos as circunstâncias. Voltou-se para as entranhas da terra, em Ouro Preto, na Escola de Minas, para desvendar segredos minerais. Mas a superfície o chamava, a noite era mais amiga. Ou mais sedutora. Mudou de rumo, caminhou para Belo Horizonte e encontrou-se nas ciências jurídicas.


O homem. Nos anos que se seguiram, nada o desviou de suas raízes franciscanas, na parcimônia e no espírito fraternal. No respeito ao próximo e na esperança de justiça social. Conciliador de opostos, mas irredutível na defesa de princípios que pautaram sua existência. Esse legado, herdado geneticamente, atavicamente, transmitiu-o à família, filhos e netos e bisnetos, já que a esposa, Risoleta Tolentino, de origem rural, vinha da mesma estirpe, de semelhante caráter, da mesma convicção de que a missão humana encontra sua maior dimensão no amor ao próximo.


O homem. Quem poderia supor sua predestinação, se o tivesse visto empinando pipas na praça sem jardins de sua terra natal?

 

Vida

 


O aprendizado é longo. Inclui sonhos de rebeldia, um grupo de estudantes percorrendo todas as cidades mais importantes de Minas em pregação cívica, em favor da Revolução de 30.


O aprendizado é longo. Há que enfrentar primeiro a rotina da promotoria pública em sua cidade natal, antes de perceber que ela é insuficiente para seu espírito inquieto, chamado a participações mais coletivas. Assim, logo abraça a advocacia e se coloca a serviço dos ferroviários, no meio sindical em gestação. Com seus votos e de outros, induzido pela liderança regional inconteste de Augusto Viegas, chega à Câmara Municipal, que preside.


O aprendizado é longo. E áspero, com duras lições a cada dia. Com o Estado Novo, que fecha os Legislativos e usurpa-lhe o mandato de vereador em 37, aprende que a liberdade é bem supremo e a violência do arbítrio político, maldição a que nenhum povo pode sujeitar-se, ainda que a resistência custe a própria vida.


O aprendizado é longo. O sabor do ostracismo político, sabor de fel, chegado tão rápido, dura até 46, quando afinal, Vargas deposto, parece querer brilhar a chama da democracia. Ei-lo de volta, agora pelo PSD, como deputado estadual e assumindo a relatoria da Constituição Estadual logo no primeiro mandato.


O aprendizado é longo, mas Tancredo queima etapas. Logo percebe que a política não é “a realização de um modelo ideal de convivência, mas a administração de conflitos”.


É essa visão que lhe vai conferir o título de conciliador. Mas para ele, conciliação não era mero oportunismo, opção ocasional, estratégia de retardo de mudanças radicais ou manobra de reformas gradualísticas, de modo a não romper padrões conservadores de mando sobre a sociedade. Pelo contrário: “a conciliação impunha-se pelo próprio tipo de evolução da sociedade brasileira”.


O aprendizado é longo. E ele o sabe. O estadista mineiro percebeu, com sagacidade e visão crítica, enquanto ascendia a deputado federal, ministro de Vargas, secretário de Estado, candidato derrotado para o governo de Minas em 60, primeiro-ministro de Jango, senador da República, que o grande problema do Brasil contemporâneo era não ter conseguido criar condições de convivência coletiva e política compatíveis com o processo de modernização econômica do País. Deriva daí seu ideário liberal: o respeito ao princípio constitucionalista, pois só ele é capaz de legitimar o governo pelo direito, e a convicção de que a estabilidade de uma sociedade livre, fundada na economia de mercado, depende de um sistema partidário autônomo e claramente definido nas suas posições políticas. Esses pressupostos levam, inevitavelmente, na arena do Congresso, aos conflitos, razão pela qual a atividade política é essencialmente aquela que esgota todos os recursos de conciliação que levem à administração daqueles conflitos. E porque essa era sua convicção, nunca participou de maquinações como as que desencadearam os Golpes de 1937 e 1964.


E porque pretendia partidos com identidade visível, mas diversa, já que é essa diversidade que democratiza o Estado, criticou duramente, e não poucas vezes, o bipartidarismo imposto pelo regime militar, em fins de 65. Longo é o aprendizado para formar o estadista.


Tendo a conciliação como princípio pétreo de sua conduta parlamentar e pública, foi, e não poderia ser outro, o artífice que levou ao parlamentarismo, permitindo a posse de Jango que a intolerância das Forças Armadas não queria admitir.


O aprendizado é muito longo. Implica renúncia às vaidades e, sobretudo, demonstrações cristalinas de lealdade. Por essa razão, ei-lo disposto a assumir todos os riscos aconselhando Vargas, na última reunião do Ministério, a enfrentar os chefes militares rebeldes, insuflados pelo revanchismo de Lacerda. Por essa razão, ei-lo discursando no enterro de Vargas, em São Borja. Por essa razão, ei-lo apertando a mão de Juscelino que parte para o exílio. Por essa mesma razão, ei-lo em oratória sofrida no enterro de Jango.


De quantos homens públicos, em vida, viu-se maior coerência de conduta? Mais retilínea postura ética e parlamentar? Predestinado ao governo de Minas, ao qual chegou em 83, o longo aprendizado encontrou-o preparado para assumir liderança nacional na campanha que o levaria à Presidência da República. Quem mais poderia fazê-lo naquele momento a não ser o vereador de São João del-Rei, o relator da Constituição Mineira de 46, o deputado federal, o ministro da Justiça de Vargas, o secretário da Fazenda de Bias Fortes, o primeiro-ministro de Jango, o que se absteve de votar no primeiro presidente militar do Golpe de 64, o fundador do MDB, o senador da República, o governador de Minas de 83, o orador emérito das Diretas, o estrategista da aglutinação de forças democráticas para a batalha do Colégio Eleitoral?


Longo é o aprendizado. Por essa razão, poucos são os predestinados à posteridade. Estadistas são os que são capazes de compreender o passado, fazer do presente uma missão e ter mãos e coração prontos para criar o futuro que anteveem com o seu olhar. Como Tancredo Neves.

 

Adeus

 


E, súbito, o que era festa e luz se tornou angústia e trevas. E o que era canto se fez silêncio hospitalar. E o que era regozijo deu lugar à incerteza. E tudo, de repente, era indagação e incredulidade, espanto e perplexidade. E já havia lágrimas. E já se instalava o desconsolo, a necessidade de orações e súplicas. E se perguntava. E se perguntavam: Tancredo? Como? Por quê?


E era só o começo do drama agônico de seus últimos 38 dias de morte, que esta foi assim, lenta bastante para identificar o povo com o sofrimento de seu líder, e rápida demais para caber toda a dor do inevitável enterro de suas esperanças.


E há quem chegue disposto a dar a vida pela vida do internado do Incor. E há quem sangre os joelhos em infindáveis orações pelo internado do Incor. E há promessas insólitas pela ressurreição do internado do Incor. E há pajelanças, transes, previsões de videntes, terços e rosários, missas improvisadas, histerias coletivas em função do internado do Incor.


E há uma comoção que varre o País de norte a sul pelo destino do internado do Incor. E há a chama de milhares de velas tremulando com a mesma fragilidade visceral do internado do Incor.


E há um cantochão que ninguém sabe de onde vem e nem o que significa, se agouro de morte ou augúrio de bem-estar para o internado do Incor.


E há lágrimas, muitas lágrimas, algumas sem qualquer preconceito ou recato, que correm despudoradamente pelo rosto de parentes e amigos do internado do Incor, e outras que se insinuam na borda das pálpebras, mas, resistentes, se acham na obrigação de não transbordar porque é preciso que alguém mantenha a esperança, a firmeza e, se possível, a certeza de sobrevivência do internado do Incor.


E há o desenlace, sempre anunciado e nunca acreditado. E há o espanto. A multidão. E há a incredulidade. E há a orfandade cívica. O obscuro horizonte. O luto coletivo. A inércia orgânica. Uma estupefação. Um desalento. Um desmotivo. Uma desesperança. E há o incontido desejo de acompanhar o corpo à sua última morada. E há o cortejo fúnebre, que não apenas segue o corpo inerte do estadista, mas acompanha o enterro de si mesmo, de suas esperanças e ilusões.


E há o retângulo frio do sepulcro do cemitério de Assis, de São João del-Rei, o imponente templo à sua frente, guardião de pedra. Uma parte, das mais belas, da história política desta Nação repousa naquele chão. Ali jaz.

 

Fonte: Fundação Presidente Tancredo Neves. Apoio: Companhia Vale do Rio Doce. Belo Horizonte, 2005 e 2010 (reedição)