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O Nacionalista Tancredo Neves

“Jornal do Brasil” – 04/03/2010


MAURO SANTAYANA


Em debate na TV-Educativa do Paraná, que será exibido no próximo domingo, o jornalista José Augusto Ribeiro narrou um episódio que mostra a altivez de Tancredo. Na viagem que fez aos Estados Unidos, logo depois de eleito, o presidente esteve com Reagan e seu secretário de Estado, George Shultz, na Casa Branca, e, em seguida, visitou o Congresso. O presidente Reagan estava mais interessado em conversar sobre os signos do zodíaco. Com Shultz, Tancredo foi firme ao dizer-lhe que esperava dos Estados Unidos o tratamento que merecem as nações soberanas e conscientes de sua independência. No Congresso, que estava em recesso, foi recebido pela Comissão de Relações Exteriores, reunida para a ocasião. Um senador tocou no assunto da Nicarágua. Naqueles meses, a administração Reagan, diante da vitória eleitoral de Ortega e da discussão de nova Constituição, determinara o embargo contra Manágua, e medidas mais drásticas estavam sendo planejadas.


Tancredo, em resposta a um senador, disse, bem devagar, a fim de favorecer a tradução: "O Brasil não permitirá a invasão militar norte-americana contra a Nicarágua". José Augusto se lembra de que o embaixador norte-americano no Brasil, Diego Asencio, presente ao encontro, ficou lívido, mas ele não tinha razões para surpreender-se com a posição de Tancredo. Meses antes, como governador de Minas, ele o recebera nas Mangabeiras, e, depois de uma conversa amável, lhe disse que as relações de troca entre o chamado Primeiro Mundo e os países em desenvolvimento eram profundamente injustas. Lembrou-lhe que os países ricos se nutriam da miséria dos pobres, ao pagar preços baixos pelas matérias-primas e cobrar muito caro pelas máquinas, insumos industriais e remédios, sem esquecer que se negavam a transferir tecnologia.


Quando o embaixador lhe lembrou que os Estados Unidos tinham imensos gastos militares para garantir as fronteiras do "mundo livre", Tancredo, sorrindo, lhe disse que o mundo livre era grato por essa defesa, mas que estavam cobrando muito caro pela proteção. E, em tom aparentemente distraído, lhe disse que estavam cobrando "mais caro do que os rapazes de Chicago". Depois de se desculpar, sorrindo, pela boutade, ficou repentinamente sério. Ao prever rebeliões no continente contra a injustiça social, que poderiam levar os conservadores a buscarem a intervenção norte-americana e levarem Washington à tentação do desembarque de seus "marines", avisou, com a mesma suavidade na voz: "É bom lembrar, embaixador, que o Brasil é bem maior e muito mais populoso do que o Vietnã".


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