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busto
J.Freitas/Agência Senado

Governador Aécio Neves ao lado do busto do avô Tancredo Neves. O busto foi inaugurado em 3 de março de 2010, no Salão Nobre do Senado, em Brasília, durante homenagem prestada ao centenário de nascimento do ex-presidente


Homenagem do governador Aécio Neves no Senado


Discurso proferido pelo governador Aécio Neves em homenagem ao centenário de nascimento de Tancredo Neves:


Senhor Presidente,
Senhoras e senhores Parlamentares,
Brasileiros,
Meus amigos.


Antes de mais nada, manifesto o reconhecimento de Minas a esta homenagem que o Congresso Nacional presta ao Presidente Tancredo Neves, nas celebrações do seu centenário.


Se ele vem sendo generosamente lembrado pelos brasileiros, em diferentes áreas, a homenagem dessa Casa tem significado especial, pois foi ao Parlamento que ele dedicou grande parte de sua vida.


Tancredo esteve sempre entre estas paredes, desde a inauguração de Brasília até aquela fatídica quinta-feira em que foi desviado de seu caminho.


Esta foi a sua casa, a sua trincheira cívica, o espaço para a alegria calorosa dos debates e para os momentos fortes de resistência e bravura.


Se olharem bem, com os olhos da Pátria, provavelmente o verão aqui.


Se não em sua poltrona, atento aos debates, nos corredores, ouvindo mais do que falando, fazendo entendimentos, conjurando perigos, tecendo, sem pressas inúteis e sem pausas estéreis, as bandeiras da paz.


Ele amava esta casa.


Tancredo era genuinamente um democrata.


Era também, na sua essência, homem do Parlamento, especialmente atraído pelo debate das idéias.


Acredito que foi justamente o exaustivo exercício do contraditório que adensou suas crenças na política - e nos caminhos da política - como espaço para o diálogo, o entendimento e a construção dos necessários consensos em torno das grandes causas nacionais.


Mas, mais do que qualquer outra coisa, Tancredo era Minas.


Em tudo era Minas.


No feroz amor à liberdade, que ele via como outro nome de nossa terra.


No amor às serranias e vales, que conhecia tão bem, tantas vezes ele percorrera a sua geografia, na pregação republicana.


Ele era também Minas na profunda fé em Deus e em nossos santos, talhados pelas mãos do Aleijadinho, estampados nas cores surpreendentes de Athayde, nos tetos de nossas igrejas e capelas.


Acompanha-me, na memória, a sua múltipla e, ao mesmo tempo, singular personalidade.


Ele sorvia, atento, o debate ideológico que se travava no mundo, mas também se preocupava com as coisas de sua São João del Rei.


Ali, caminhando sobre as pedras seculares que sentiram os passos inquietos dos inconfidentes, Tancredo entendia que o núcleo íntimo e poderoso da pátria é o chão de nascimento.


O grande homem de Estado é aquele que consegue meditar sobre o destino do mundo, sem descuidar de seu país;


E consegue refletir sobre o seu o seu país, sem esquecer a província, e pensar na província, sem desviar-se do zelo para com a Pátria.


O traço mais forte de sua personalidade era a busca da conciliação.


Ele só entendia a ação do homem público dentro das razões da paz.


Costumava reiteradamente repetir: em Minas, brigam as idéias e não os homens!


Mas Tancredo não era apenas conciliador - um ouvinte paciente, um negociador talentoso..., ameno no trato e nas palavras.


Há um Tancredo, que nem todos conhecem.


Nas horas difíceis e decisivas da nossa história sabia acrescentar à cordialidade e à elegância a coragem cívica, quando o que estava em jogo eram os princípios democráticos e o Brasil.


E aqui vejo importantes testemunhas desse tempo.


Ambos – o conciliador e o defensor intransigente dos princípios que professava - se fundiram em um líder por inteiro.


Um líder comprometido- sempre- com a ordem democrática e a legalidade.


Sabia, como poucos, separar as circunstâncias do fundamental.


Era um permanente construtor de pontes.


Pontes que aproximavam as pessoas.


Pontes que faziam o país ser mais inteiro.


E poucos foram tão corajosamente coerentes como ele.


Prevaleceu, para a maioria do nosso povo, a sua presença fundamental no processo de reconquista da democracia nacional.


No entanto, ele esteve no centro de todas as grandes questões brasileiras do nosso tempo.


Sua coragem cívica e seu senso de dever político se expressaram muitas vezes.


Percebia, com nitidez, que um dos maiores problemas do Brasil contemporâneo era não ter criado as condições de convivência política e de convivência coletiva compatíveis com o processo de modernização econômica do País.


Por isso, para ele era sempre tão vital esgotar as possibilidades de entendimento em torno das causas nacionais. Tancredo dizia sempre:
“Me sinto mais feliz quando faço um bom acordo do que quando derroto um adversário”, costumava dizer.


Sabia ele que dividir, antagonizar, aprofundar diferenças e intransigências são sempre tarefas fáceis.


E também é o caminho mais eficaz para transformar dificuldades muitas vezes em impasses intransponíveis.


O difícil é construir o rumo e as bases para o caminho comum.


É conciliar as diferenças em torno de objetivos maiores.


Esse exercício da conciliação lhe exigia dedicação, perseverança.


Humildade. Tancredo nos ensinava:
“Transijo em torno de objetivos secundários, nunca em torno de princípios, ensinava, seguro de suas convicções.


Ao longo da sua vida publica, Tancredo seguiu o seu credo de coragem e dedicação à causa democrática.


Permaneceu ao lado do presidente Vargas e das forças constitucionais.


Dirigiu-se publicamente à Nação pedindo que fosse garantida a ordem constitucional e a posse do vice-presidente, quando da renúncia de Jânio Quadros.


Articulou a implantação do sistema parlamentarista como forma de garantir o essencial: a chegada do presidente João Goulart ao governo.


64 o encontrou como líder da maioria e do governo que caia, na Câmara dos deputados.


Ele foi uma das vozes da consciência indignada da Nação no plenário desse Congresso, quando foi decretada vaga a Presidência da Republica com o presidente Goulart ainda em solo brasileiro.


Enfrentou soldados para se despedir do seu presidente.


Único deputado do PSD de Minas a se abster de votar no Marechal Castelo Branco, acompanhou o presidente Juscelino em seus depoimentos às autoridades militares e na dramática hora do seu embarque ao exílio.


Nesses dias, revi algumas cartas e em uma delas, escreveu Juscelino:
“Me lembro que a sua foi a última mão que apertei antes de deixar o Brasil! A democracia ainda há de voltar ao Brasil por causa de homens como você”.


Enterra, com seu brio e sua lealdade, todas as conveniências do momento e volta a são Borja para honrar o sepultamento do presidente Goulart.


E é, nas palavras de Almino Afonso, o único político de expressão nacional a se despedir pessoalmente do ex-presidente.


São também Tancredo as palavras mais fortes de despedida ao presidente Juscelino.


Durante a ditadura, articula incansavelmente. Procura brechas, tateia saídas no escuro.


Mais uma vez, tece diálogos, constrói pontes e abre caminhos.


Anos depois, foi às ruas com a Campanha das Diretas.


Nela, ganhou o coração do país, ao lado de gigantes como Ulysses, Montoro e Teotônio.


Sabia que a hora era aquela.


Sentia que o país estava maduro para fazer a sua travessia, ainda que o sonho das eleições diretas não se consumasse no primeiro momento.


O importante era fazer a travessia.


O fundamental, de novo, era garantir o essencial.


E o essencial era virar definitivamente a página do autoritarismo.


Ele estava pronto.


O País estava pronto.


A ida ao Colégio Eleitoral violentava sua alma democrática.


Mas era o único caminho possível.


A única porta aberta pela história.


“Essa foi a última eleição indireta do País”, foram as suas primeiras palavras como presidente eleito.


Tancredo sabia a intensidade do compromisso que estava assumindo com a história.


Não haveria meio termo.


Carregava consigo e em si a alma dos Emboabas, combatentes anônimos que, pela primeira vez, tombaram em
defesa de nossos brios e de nossa liberdade.


Estava com Felipe dos Santos, com Joaquim José e com mineiros, vendeiros das estradas, escravos alforriados, garimpeiros, brancos sem terras e sem trabalho.


Eram essas as vozes que ecoavam pelas ruas da sua São João Del rei, nas suas noites indormidas, e que jamais abandonaram sua alma e consciência.


Tancredo viveu com a intensidade das suas convicções democráticas os seus últimos dias.


A sua grande preocupação era garantir as condições para que o processo de redemocratização do país se tornasse irreversível.


Melhor do que ninguém, conhecia a fragilidade das nossas instituições.


Para isso trabalhou, noite e dia, mesmo após sua eleição.


Para isso, foi ao exterior buscar apoio internacional à incipiente democracia que ajudara a construir.


Garantir o ingresso definitivo do Brasil na ordem democrática era sua preocupação no leito do hospital até seus últimos dias.


Essa preocupação balizou as escolhas que fez em toda a sua vida.


Balizou também as escolhas dos seus últimos dias.


Tornaram-se, assim, proféticas as palavras que ele disse no seu discurso de despedida aqui neste plenário, onde acompanhei sentado em uma dessas poltronas, ao se referir à morte do presidente Vargas:


Ele nos deixou o ensinamento indelével de que, no serviço da Pátria, a vida é o que menos vale.


Senhoras e senhores,


Avançamos muito nesses 25 anos.


Conquistamos muito. E isso não foi obra de um só homem, de um só governo.


Acredito, no entanto, que tem nos faltado o despreendimento e a generosidade que nos aglutinaram no passado, para que então carregássemos juntos – e lado a lado - a bandeira da redemocratização.


Tem nos faltado a grandeza de líderes capazes de recuperar o sentido mais amplo da conciliação, para que nos permitíssemos convergir, todos, em torno das grandes causas nacionais.


Falta-nos enxergar e compreender que o País é muito maior que o limite estreito que tantas vezes nos impõem as circunstâncias.


Esperamos – sempre e eu de forma muito clara - que os valores e as crenças daqueles que, como Tancredo e seus companheiros, que vieram antes de nós e cumpriram os seus deveres, possam impregnar as convicções dos homens públicos de hoje. E aqui estão alguns dos mais ilustres.


E que esses valores inspirem as novas gerações de brasileiros, na direção do País que queremos e sonhamos há tanto tempo.


Sobre esses deveres, Tancredo nos dizia: “a pátria não é o passado, mas o futuro que construímos com a nossa ação presente. Não é a aposentadoria dos heróis, mas tarefa a cumprir. É a promoção da Justiça, e a justiça só se promove com liberdade!”


Reitero-lhes, Senhores parlamentares, os agradecimentos de Minas, por esta bela solenidade, de homenagem ao democrata e federalista Tancredo de Almeida Neves.


Manifesto especial agradecimento ao senador Eduardo Azeredo e ao deputado Rafael Guerra, grandes nomes de Minas, que tomaram a iniciativa de nos proporcionar esse belíssimo reencontro com a nossa história.


Mas não seria justo encerrar minhas palavras sem o necessário reconhecimento ao presidente Sarney.


Naqueles momentos difíceis enfrentados pelo País, e eu fui testemunha permanente, ele soube manter-se digno e leal aos valores que mobilizaram as ruas e as praças públicas: garantir as condições para que a conquista da democracia se tornasse, finalmente, um patrimônio de todos os brasileiros.


Tancredo Neves faria cem anos amanhã, se ainda estivesse com o nosso povo: o grande povo brasileiro, que ele amou, serviu e respeitou.


Hoje, ele vive no coração da nossa gente, fazendo pulsar o compromisso permanente dos homens de Minas com o Brasil.


Amigos,


Encerro aqui minhas palavras como governador dos mineiros e peço licença para ceder a voz ao neto que teve o privilégio de acompanhar de perto os últimos anos de vida do estadista.


Em mim e em cada um dos nossos há muito mais que orgulho por Tancredo.


Há principalmente saudade...


Uma enorme saudade.


Posso vê-lo, como se fosse ontem, sentado em sua poltrona, com seus olhos apertados, buscando o que havia e o que estava por vir, nos longes de Minas...


Se, na atividade política todos os dias são dias de aprendizado, devo reconhecer que aprendemos mais em alguns deles.


De Tancredo recebi as mais importantes lições, que elevam ao mesmo patamar a política, a ética, a coragem e o bem comum.


Com ele e sua densa trajetória, conheci e compreendi o verdadeiro sentido da vida pública.


Aprendi que o exercício da vida pública tem que ser o exercício da responsabilidade.


E que só poderemos ser fiéis àqueles que representamos se formos antes - e sempre - fiéis a nós mesmos, às
nossas próprias convicções.


Porque aquele que trai a si mesmo e às suas convicções mais íntimas, não merece o respeito de seus compatriotas.


No exercício do poder nunca estamos sozinhos.


Mas somos sempre sós.


As grandes decisões são sempre solitárias.


Indelegáveis.


Podemos e devemos compartilhar opiniões, estar abertos às críticas e aos conselhos, dividir tarefas, somar esforços, mas a escolha do caminho a seguir é sempre solitária.


Por isso, precisamos fortalecer diariamente as nossas convicções.


Precisamos resistir às pressões que nos afastam daquilo que acreditamos.


Precisamos acostumar os olhos à luz e à sombra da política, para enxergarmos com clareza os interesses menores que se travestem de interesse coletivo.


Não podemos temer a incompreensão, quando agimos de acordo coma nossa consciência e responsabilidade.


Meus amigos,


Tancredo vive, ao seu modo, em cada um de nós.


Porque em cada um de nós sobrevive algo do que ele um dia representou.


Ele foi aquela esperança que nos tomou um dia e nos levou às ruas.


Ele é a representação da crença viva não no que somos, mas no que podemos ser.


E a convicção do que podemos fazer, quando juntos sonhamos os mesmos sonhos sobre o maravilhoso Brasil.


Nesses dias de reflexão sobre o momento nacional e de renovação das nossas convicções, tenho buscado na cabeceira das noites mal dormidas, como Tancredo fazia, os mesmos ensinamentos de Minas.


Gostaria de encerrar minhas palavras deixando-lhes as palavras de um outro grande mineiro, Afonso Arinos de Melo Franco.


Ao localizar Minas neste permanente cenário de construção da nacionalidade, ele pontuou a nossa grande responsabilidade histórica.


Abro aspas para o mestre:
"Minas é o centro e o centro não quer dizer imobilidade, porém peso, densidade, nucleação, vigilância atenta, ação refletida, mas fatal e decisiva.


Minas foi, é e será sempre o centro.


As suas terras tocam os climas do norte.


Participa dos climas úmidos e florescentes da orla litorânea.


A oeste, da civilização do couro.


Ao sul, confina com a riqueza paulista.


Daí a sua posição histórica, que é um imperativo geográfico, econômico, étnico.


Tende para a direita, quando a ordem periga.


Tende para a esquerda, quando periga a liberdade.


Age por compensação, como as defesas orgânicas, posição central que alguns por vezes não compreendem, mas sempre agradecem quando, serenadas as paixões, analisam de boa-fé os resultados."


Muito obrigado!!!!


Pronunciamento do governador Aécio Neves na sessão solene em homenagem ao centenário de nascimento do presidente Tancredo Neves, em 03/03/2010

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