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HOMENAGEM A JUSCELINO KUBITSCHEK

BRASÍLIA – 14/09/1976

“Ele foi um predestinado que soube cumprir com grandeza a sua missão. Ilustrou, enriqueceu e elevou a sua Pátria. Dignificou o seu povo. Prestigiou e fortaleceu as nossas instituições democráticas. Preservou e opulentou o patrimônio dos nossos princípios.”

Discurso do deputado Tancredo Neves em homenagem ao presidente Juscelino Kubitschek, na Câmara Federal, em Brasília (14/09/1976)

 

 

Senhor presidente, deputado Célio Borja, meus colegas, integrantes da Mesa da Câmara, senhores deputados, minhas senhoras, meus senhores:

No elogio fúnebre de De Gaulle, no seu inimitável
Quando os carvalhos se abatem, o talento literário de Malraux nos narra cena simples e comovente que presenciou, quando, em Colombey-les-Deux-Églises, era dado à sepultura o corpo do grande herói francês. Uma fila de fuzileiros navais, eretos e firmes, apresentava armas ao cortejo que desfilava, contendo uma multidão que atrás de si se apinhava. Eis que do meio dela se destacava uma mulher do povo, uma pobre camponesa de xale preto, humilde e triste, que, dirigindo-se a um daqueles militares, com voz altiva e enérgica, reclamou: por que não me deixam passar? – a ordem é para todos, foi a resposta ríspida e seca. Malraux, que assistia ao diálogo, pousou a sua mão no ombro do marinheiro e ponderou: “deixe-a passar. O general ficaria satisfeito. Ela fala como a França.” Fazendo meia-volta, sem pronunciar uma palavra, sem mexer um só músculo, ainda apresentando armas e abrindo um claro, por ele penetra, coxeando, aquela francesa obscura e anônima. Nesse episódio, Malraux sentiu e viu, através de estranho e misterioso simbolismo, um apresentar de armas à França eterna, miserável e fiel.

Esse o sentimento que de todos se apoderou na tarde e noite do último 23 de agosto, quando contemplamos, nesta capital, aquela imensa massa humana que se agitava no seu seio e se espraiava ao longo das suas ruas e avenidas, aguardando horas a fio, respeitosamente, o instante de prestar a sua última homenagem ao presidente, ao servidor do povo, ao amigo de todos, que, horas antes, a morte tragicamente nos arrebatara. Ela resumia, na sua consternação, a alma de quase cento e dez milhões de brasileiros, espalhados na vastidão do nosso território que, naquela mesma hora, tomados da mesma emoção, unidos na mesma dor, carpiam o líder excepcional, cujo desaparecimento colocava em destaque a lição digna e luminosa de sua vida, tecida no estudo, no trabalho, na bondade e na inquebrantável fidelidade aos valores perenes da Pátria.

Houve em cada lar uma prece, em cada face uma lágrima, em cada coração um voto de pesar e de saudade.

É que Juscelino Kubitschek de Oliveira pertencia àquela rara estirpe do herói de Sófocles na Antígona: “não viera para partilhar o ódio, mas para distribuir o amor”.

As nacionalidades dependem muito de sua configuração física, dos acidentes imprevisíveis e incontroláveis de sua formação, dos entes telúricos que lhes vincam a índole e a vocação, mas não há notícia na história de que nenhuma delas se haja transformado em nação poderosa, digna e culta, sem a presença de condutores clarividentes e proféticos, de guias seguros e carismáticos, de líderes sábios e generosos. São os predestinados que, com as suas mãos fortes e rígidas, sabem argamassar as virtudes e os defeitos do seu povo para torná-lo viril e dinâmico e que, com o olhar fito no futuro, rasgam nos horizontes a perspectiva iluminada do seu destino. Deles, mercê de Deus, está repleta a nossa história. Desde aquelas páginas encantadoras de beleza e heroísmo escritas pelos missionários jesuítas, passando pela epopeia das Bandeiras, em que os Garcia, os Raposos, os Bartolomeu Bueno e os Fernão Dias balizaram os limites de nossa geografia, revogando o Tratado de Tordesilhas, a golpes de bravura, tenacidade e audácia, até chegar aos sonhos de liberdade de Tiradentes e Frei Caneca, que o príncipe resoluto e impetuoso concretizou, cunhando a bela e estupenda legenda de nossa Independência.

Deles, e dos maiores, foi Pedro II, que, nos quatro decênios do seu reinado, estruturados na luta, no sacrifício e na austeridade, permitiu que a espada conciliadora de Caxias fundisse a unidade moral, política e territorial de nossa Pátria; a Vasconcelos e a Honório Hermeto, plantar e consolidar as nossas instituições livres; ao Visconde do Rio Branco e a Paulino de Souza, fixar as diretrizes de nossa política externa; e a Mauá, empreender as primeiras tentativas de nosso processo de emancipação econômica, enquanto Nabuco, Patrocínio e a princesa Isabel nos redimiam da vergonha extrema da escravidão.

Crescemos, fortalecemo-nos e nos dignificamos sempre na linha da generosidade cristã, no respeito ao direito, no culto da liberdade, sem a qual as nações se transformam em imensos campos de concentração e os povos se estiolam no medo, na covardia e na mediocridade.  

Com o advento da República, Rui Barbosa retoma a defesa dos princípios fundamentais da nossa História. Com o seu gênio político, o seu verbo potente e a intrepidez do seu caráter, incendeia a alma nacional contra os perigos da violência, contra as deformações da força e, sobretudo e principalmente, nos deixa a lição imortal que penetrou a consciência da Nação e nela se cristalizou,  do acatamento às decisões dos tribunais íntegros e livres, da submissão à lei e, acima de tudo, do horror a todas as formas de tirania, que se extravasam sempre na intolerância, na opressão e no fratricídio.  

A Primeira República – e o afirmo sem nenhum demérito para os ilustres varões que a presidiram com honra e patriotismo – foi Rui Barbosa. Quando ele morre, ela também se exaure e perece, extinguindo-se num melancólico crepúsculo de vil e apagada tristeza.

E rompe 1930, uma alvorada redentora, uma clarinada de fé e civismo, uma mensagem de esperança em todos os corações, trazendo, no bojo dos acontecimentos de um mundo convulsionado e em crise, a figura consular de Getúlio Vargas, que, com a fascinação de sua forte personalidade, haveria de dominar o cenário histórico do seu tempo. (Palmas)

O voto secreto e a Justiça Eleitoral, a Petrobras, Volta Redonda e Eletrobrás, a Força Expedicionária Brasileira e os seus feitos heroicos e, acima de tudo, a renovação social do Brasil são vigorosas e definitivas dimensões de cultura, força e grandeza que se acresceram ao patrimônio de nossa civilização.

Eclode a guerra, qual um dilúvio apocalíptico de sangue, fogo e ferro, como se fora um imenso e insaciável Moloch, de fauces hiantes a devorar implacavelmente os valores de uma civilização perempta, que se avelhantara e se degenerara na impiedade, no egoísmo, na mentira e na injustiça. Em meio a esse cataclismo gerado no ventre dos conflitos ideológicos, quando o mundo desarvorado parecia naufragar, dilacerado, em meio à hecatombe, os numes tutelares da Pátria convocam Juscelino Kubitschek de Oliveira para comandar-lhe os destinos.

Não vou traçar a biografia esquematizada do grande brasileiro. Outros já o fizeram com a acuidade e o brilho de que eu não seria capaz (não apoiado!), e muitos outros ainda o farão. Limitar-me-ei apenas a assinalar que de todas as etapas de sua existência irradia-se uma mensagem que enobrece e dignifica a vida: do menino pobre de Diamantina vem-nos a fé no futuro; do jovem que atravessava as madrugadas debruçado sobre um aparelho telegráfico remonta a confiança no trabalho; do médico humanitário fica-nos o amor ao próximo, e, do estadista, a lição indelével da servidão cega à Constituição, da dignidade humana elevada à santidade de um dogma, o culto à liberdade, metamorfoseado em religião, que não se apostata impunemente.

Prefeito de Belo Horizonte, oprimido pela angústia dos recursos financeiros, supre, com imaginação e inteligência, a deficiência dos meios, fazendo da então apagada e obscura capital sertaneja, um centro de trabalho intenso, de estudos sérios e de desenvolvimento artístico.

A urbanização e o embelezamento da Pampulha, com a sua primorosa e pioneira igrejinha, são hoje expressões universais do poder criador de artistas desconhecidos na época, mas agora consagrados mundialmente, que atendem pelos nomes de Lúcio Costa, Niemeyer, Portinari, Ceschiatti e Santa Rosa.

Era um novo Midas, transformando em ouro, ao toque de seu talento privilegiado, o cascalho duro e informe daquela cidade triste e desconfiada.

Governador de Minas, na sucessão dos dias, meses e anos, de um labor infindável, caracterizou-se pela nobre ambição de tudo fazer para eliminar e reduzir o sofrimento do povo, dando-lhe educação, trabalho, hospitais, estradas e energia. Não postergou a tradição, mas a ela não se escravizou. Revoluciona, renova, inova, constrói e destrói, conseguindo milagres verdadeiramente surpreendentes com o seu binômio: energia e transporte. E de tal forma se houve no Palácio da Liberdade que o volume das suas realizações e as proporções extraordinárias da sua obra projetaram-no em todos os recantos do Brasil, que passou a ver no governador de Minas um homem público lúcido, presente e atuante, dos maiores do seu tempo.

A sua caminhada para o Catete foi uma epopeia, uma batalha sem tréguas, uma travessia desassombrada por terreno minado, que a qualquer outro teria levado ao desânimo, menos a ele, que possuía a fibra indomável de um gladiador.

A campanha que os adversários lhe impuseram foi das mais duras, ásperas e violentas. No rádio, na imprensa escrita, na televisão, nas tribunas parlamentares, nada lhe foi poupado. Não houve expediente, dos mais torpes aos mais desumanos, que não fosse posto em prática. Era um deliberado acender de fogueiras. Vetos, cédula única, maioria absoluta, a intimidação no devassar impiedoso e inescrupuloso da sua intimidade, mas ele, nem mesmo no paroxismo da luta, quando mais cortantes eram as contumélias, mais contundentes as injúrias, mais infamantes as calúnias, se deixou atormentar pela paixão ou pela irascibilidade, não admitindo sequer pudesse perder a linha de sua elevada compostura; e, como aquele mar que Xerxes chicoteou, continuava imperturbável e impassível, tranquilo com a sua consciência, intimorato com o seu coração.

Todos nos lembramos dos primeiros dias de seu governo. O estado de sítio amortalhava a Nação, como medida extrema para conter o delírio dos inconformados e impedir a proliferação das maquinações do terrorismo impenitente. A Nação sangrando e dividida em campos nitidamente caracterizados. Crise econômica, crise política, crise militar. Os mais otimistas vaticinavam: governo agitado, legalidade ameaçada.

Eis que se revela o estadista, em toda a sua plenitude, e o gênio político na força de sua capacidade. Os que nele esperavam vinditas e represálias se surpreenderam e se decepcionaram. Suspende, por iniciativa própria, no mesmo dia de sua posse, o estado de sítio, restaura as franquias legais, devolve à imprensa e aos instrumentos de comunicação os veículos da liberdade. Cinco anos de trabalho, de estabilidade, de prática ilesa da democracia. A paz interna, a prosperidade. Legislativo e Judiciário intocáveis na sua majestade, imprensa solta e o prestígio internacional que ele consegue, através da subordinação inapelável à voz das urnas e da diuturna vigilância e zelo na observância do exercício dos sagrados direitos do homem. (Palmas) 

Seria fastidioso descerrar as monumentais realizações de Juscelino Kubitschek de Oliveira na Presidência da República. E não apenas fastidioso, de todo desnecessário, porque elas estão gravadas, em letras de fogo e para sempre, na gratidão nacional. Mas não se pode falar de Juscelino Kubitschek de Oliveira sem falar de Brasília, o que seria uma omissão imperdoável.

Concepção nacionalista dos primórdios de nossa história, devaneio dos inconfidentes, visão alucinada do patriarca, sonho de inspiração divina de Dom Bosco, mandamento imperativo de todas as nossas Constituições, haveria de encontrar, no garimpeiro de Diamantina – sonhador temerário e ousado – as mãos ciclópicas para plantá-la e chantá-la nas regiões abandonadas no nosso Planalto Central, como âncora da nacionalidade, a lhe apontar permanentemente os horizontes sem fim da esperança. (Palmas prolongadas)

Lutou e muito sofreu para construí-la. Teve de enfrentar pressões externas e internas, insuportáveis. E quando se viu só na sua determinação, apelou para o candango, em cujos músculos, como avatar, se alojara o arrojo dos bandeirantes.

Já se disse que as catedrais medievais não teriam sido levantadas se a fé católica, viva e forte, não morasse no espírito dos seus obreiros. De Brasília, parodiando, poder-se-á dizer o mesmo: ela teria sido um fracasso oceânico, um himalaia de frustrações, se o coração ardente do candango, com todas as suas veras não se sintonizassem com a fé, a coragem e a decisão de Juscelino Kubitschek de Oliveira.  

Brasília foi, no passado, o seu desafio, hoje é a sua afirmação e amanhã há de ser o marco eterno de sua glória.

Esta bela capital é o cadinho onde se acrisolam as esperanças mais puras da nacionalidade, a forja imensa onde se retemperam as energias da brasilidade, o mais alto movimento artístico de uma raça e o atestado inequívoco da determinação de um povo.

Cassaram-no, é verdade. Baniram-no da vida pública. Os vilipêndios que amarguravam os últimos anos de sua existência não o abateram e nem o diminuíram, ele cresceu no coração do povo. Na sua humildade cristã, ele encontrou as forças da altivez e da honra para enfrentar e suplantar as maquinações do ódio.

Os interrogatórios inquisitoriais não demoliram o seu ânimo. As ameaças do terror não o amedrontaram. Mas no exílio ele se entibiou e sofreu. A saudade da Pátria distante e o pavor de que não pudesse mais revê-la angustiavam-no e penetravam no seu coração como uma agonia. De Nova Iorque, ele escreve a um amigo palavras repassadas de desalento e de amargura. Ouçamo-lo:


“O dia de Natal amanheceu triste. São duas horas da tarde e a noite já cobriu a cidade; não se veem senão as luzes fosforescentes dos carros e dos anúncios. Ontem tive surpresa comigo mesmo. À noite, por volta das sete horas, senti uma solidão mortal. Não conseguia atender a telefonemas sem quebrar a emoção, porque esta me impedia de falar. Uma tristeza pesada, brutal, dolorosa, invadiu-me. Por que está acontecendo isto comigo? Nova Iorque é uma cidade constituída de rinocerontes de aço. À noite há muita luz que sai dos olhos dos animais, mas que em nada altera o panorama da solidão.”

O exílio é o preço que os grandes homens pagam para conseguir um lugar no coração da História. Eles são supliciados antes de serem glorificados, como ainda há pouco na sua notável oração dizia, desta tribuna, o insigne colega Brígido Tinoco. Demóstenes amargou-o por ter escrito a Oração da Coroa, o mais terrível libelo contra as tiranias e o liberticídio. Cícero, cuja cabeça decepada, colocada no rastro do jejum romano, ainda continua sendo, através dos séculos, o mais veemente protesto contra os delitos da força e as insânias da truculência, também o padeceu. Napoleão, que traçou com a ponta da sua espada o mapa do mundo na sua época, encontrou em Santa Helena os seus momentos de maior dignidade espiritual e a mais elevada sublimação de sua personalidade. Chateaubriand e Victor Hugo foram compelidos a comungar a hóstia do ostracismo, sem que em nenhum instante a imortalidade fosse amesquinhada.

Mas por que buscar tais exemplos em outras histórias e em outros povos, se temos entre nós não menos nobres nem menos belos?  

Exilados foram os Andradas que nos deram a Independência. Pedro II, o mais conspícuo de todos os brasileiros, desterrado, morreu longe da Pátria, com o coração estraçalhado pelas ingratidões e a alma ulcerada de desenganos. O visconde de Ouro Preto e Silveira Martins cobriram-se de honras no degredo. Rui Barbosa e Epitácio Pessoa se avultaram em dignidade e heroísmo, quando o preferiram a se acomodarem com o perjúrio da Constituição e o império da violência. Siqueira Campos, Washington Luiz, Otávio Mangabeira, Arthur Bernardes são constelações fulgurantes de civismo que, na expatriação, nos deram o exemplo de que todo o sacrifício é pequeno, quando celebrado com ardor patriótico, no altar da Pátria.  

O exílio era o toque que faltava para compor a imagem histórica de Juscelino Kubitschek de Oliveira, a moldura de ouro de sua radiosa personalidade, o píncaro resplandecente de sua empolgante trajetória.

Sr. presidente, Srs. deputados. Seja-me permitido, antes do término desta alocução, que os sentimentos me vão ditando e que pronuncio por honrosa delegação da direção nacional do Movimento Democrático Brasileiro, que eu quebre, de leve, o protocolo solene desta magna e histórica sessão da Câmara dos Deputados para dirigir uma palavra à Exma. Sr.ª D. Sarah Kubitschek de Oliveira (palmas prolongadas), que nestes dias tristes nos surpreende com as suas resistências espartanas do seu espírito. O preclaro presidente Juscelino Kubitschek, estilista primoroso, como prosador e notabilíssimo orador, nunca, ao que me conste, em qualquer fase da sua vida, buscou o ritmo e a rima para expressar suas emoções. Sei, porém, que talvez o único verso da sua palavra ele o compôs para a sua consorte, incomparável companheira, no esplendor e no tormento, e o fez gravar numa placa que em sua homenagem e reconhecimento do muito que dela recebera de encorajamento, ternura e amor,  afixou na sua fazenda de Luziânia. É singelo e de emocionante beleza: “Solar de Dona Sarah, que, com exemplar dignidade, foi primeira-dama de Belo Horizonte, de Minas, do Brasil e é desta casa”.  

Mais não se poderia dizer de dama tão ilustre, em cuja personalidade sedutora e harmoniosa se encastram todas as delicadezas do coração e a resistência inflexível do caráter da mulher brasileira.  

Esta discurso já vai longe e urge terminá-la.

Falando pela última vez no Senado da República, onde se orgulhava de representar o bravo Estado de Goiás, e quando dúvida já não mais havia da sua proscrição iminente, Juscelino Kubitschek de Oliveira sentenciou:


“Mais uma vez tenho nas mãos a bandeira da democracia que me oferecem, neste momento em que, com ou sem direitos políticos, prosseguirei na luta em favor do Brasil. Sei que nesta terra brasileira as tiranias não duram; que somos uma Nação humana penetrada pelo espírito de justiça. Homem do povo, levado ao poder sempre pela vontade do povo, adianto-me apenas ao sofrimento que o povo vai enfrentar nestas horas que já estão caindo sobre nós. Mas delas sairemos para a ressurreição de um novo dia, dia em que se restabelecerão a justiça e o respeito à pessoa humana”.

Esse dia começou a alvorecer com a sua morte. Do fundo da sua tragédia, ele ainda conseguiu que a alma brasileira, inconformada e democrática, rompesse a reclusão e viesse para as ruas. Foi o seu último encontro com o povo, e esse encontro foi apoteótico, triunfal e consagrador.

Assistimos à antecipação do seu julgamento histórico, a sua entronização no Panteão da Pátria, o ato público apoteótico, solene e majestoso de revogação de todas as injustiças e agravos que os ódios e as paixões lhe irrogaram.

 
Ele foi um predestinado que soube cumprir com grandeza a sua missão. Ilustrou, enriqueceu e elevou a sua Pátria. Dignificou o seu povo. Prestigiou e fortaleceu as nossas instituições livres. Preservou e opulentou o patrimônio dos nossos princípios sagrados. Sonhou, lutou e sofreu para reduzir entre nós a área dos miseráveis e apaziguar o espírito revoltado dos que têm fome e sede de justiça.

Outro assim, para repetir o vate andaluz, tardará muito tempo em nascer.

Diante do seu vulto, que a morte transfigura e ilumina com os clarões da imortalidade, elevando-o aos páramos onde se encontram os espíritos tutelares da Pátria, outras palavras não encontro para encerrar esta oração, senão aquelas que o gênio de Shakespeare, na mais famosa de suas tragédias políticas, colocou nos lábios de Marco Antônio, ao contemplar o cadáver mutilado de César:

“Dos nobres era o mais nobre. A sua vida era pura. Os elementos que compunham o seu ser de tal forma nele se conjugavam, que a natureza inteira poderia levantar-se e bradar ao Universo: aqui está um Homem.”

Fonte: Tancredo Neves - Um Homem para o Brasil. p. 7-13