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Casos

Segredo

Um eleitor de São João del-Rei procurou Tancredo aflito:


— Dr. Tancredo, vou contar um segredo ao senhor. Mas é só para o senhor.


— Não conte, não, meu filho. Se você, que é o dono do segredo, não é capaz de guardá-lo, imagine eu.


Fonte: “Folclore Político”, de Sebastião Nery. Geração Editorial. São Paulo, 2002

Sussurros

Novamente candidato a governador, em 1982, Tancredo chegou afônico para um comício na divisa com o Espírito Santo.


— Fala mais alto! Fala mais alto!, gritaram ao pé do palanque.


— Melhor não, sussurrou Tancredo. Não quero que os capixabas escutem.


Fonte: “Tancredo Vivo – Casos e Acaso”, de Ronaldo Costa Couto. Editora Record. Rio de Janeiro, 1995

Bola na área

Eleito presidente, Tancredo Neves foi aos Estados Unidos e Europa. Passou pelo México. Augusto Marzagão, vice-presidente da Televisa, a maior televisão do México, organizou uma entrevista coletiva. Desde a Copa de 70, quando o Brasil ganhou o tri com a maior seleção mundial de todos os tempos, os mexicanos são siderados pelo futebol brasileiro. Um jornalista perguntou a Tancredo:


— Presidente, é fácil ser eleito presidente da República no Brasil?


— É, sim. Difícil é ser escolhido técnico da seleção brasileira.


Fonte: “Folclore Político”, de Sebastião Nery. Geração Editorial. São Paulo, 2002

Sem gás

Câmara Federal, seis da tarde, maio de 1977, em plena fossa política depois do “pacote” de abril. O horizonte infinito de Brasília descia cinza sobre a cidade, baixando a pressão dos edifícios e das pessoas. Tancredo Neves e jornalistas espiavam, do outro lado, todo em luzes, o Palácio do Planalto. Miriam Macedo, de O Globo, parte o silêncio:


— Deputado, o senhor hoje está apagado, sem gás.


— Sem gás e sem Geisel, minha filha.


Fonte: “Folclore Político”, de Sebastião Nery. Geração Editorial. São Paulo, 2002

Vaias e aplausos

Franco Montoro, Tancredo Neves e Leonel Brizola estavam almoçando no Palácio Bandeirantes quando a multidão de desempregados chegou gritando slogans, derrubando grades e exigindo falar com o governador. Montoro levantou-se tenso, pálido, o rosto crispado:


— Vou lá falar com o povo. Vamos os três?


Brizola, discretamente, discordou:


— Se formos os três, pode ficar parecendo que você não quis ir só. E São Paulo está querendo é a palavra de seu governador e não a presença de visitantes.


Tancredo sorriu:

 

— Está bem. Concordo. Mas se o povo estivesse lá fora batendo palmas e dando vivas, iríamos os três, não?


Montoro foi, falou, depois contou.


Fonte: “Folclore Político”, de Sebastião Nery. Geração Editorial. São Paulo, 2002

Saci-pererê

Tancredo chegou a uma cidade do interior, o velho coronel do PSD o chamou a um canto:


— Quem é mesmo o candidato dos amigos do Juscelino? O Israelzinho esteve aqui e disse que é ele. Achei esquisito.


— Esquisito, por quê?


— Esse menino parece saci-pererê. Quer fazer a vida como fantasma, nos cavalos dos outros. No do pai, porque é filho. No do Figueiredo, porque é da Arena. E agora no do Juscelino, porque Juscelino é Minas. Mas ele vai cair.


— Cair de quê?


— Dos cavalos. Doutor Tancredo, o senhor já viu saci-pererê com 100 quilos?


Fonte: “Folclore Político”, de Sebastião Nery. Geração Editorial. São Paulo, 2002

Central de boatos

Tancredo conversava animadamente com um jornalista amigo sobre a atividade do Congresso. De repente a pergunta:


— O senhor não acha aquilo meio enfadonho, repetitivo, cansativo? Aquela discurseira, aquela lengalenga...


— Que nada! Aquilo é um centro de criatividade. Quer ver? De vez em quando, eu invento um boato e solto lá na entrada, quando chego. Daí, passo rapidamente no meu gabinete e depois vou ao plenário. Sabe o que acontece?


— ???


— Encontro o meu boato muito melhorado e, às vezes, já com um ou dois filhotes. Boatinhos novinhos em folha...


Fonte: “Folclore Político”, de Sebastião Nery. Geração Editorial. São Paulo, 2002

Trote invertido

Com muita frequência, o próprio doutor Tancredo recebia ou fazia pessoalmente seus telefonemas. Surpreendia seus auxiliares e colocava em pânico as secretárias. Num domingo, uma repórter muito esperta, com quem ele não podia falar, ligou para o Palácio das Mangabeiras e ouviu algo bem característico dele, marca registrada:


— Aaaalôô!


— Alô! Oh, governador, já é o senhor? Desculpe-me! Aqui é a ...


Ele reconheceu a voz e a interrompeu:


— Desculpe, dona, mas aqui é o porteiro. O governador saiu.


— Mas a sua voz é igualzinha à do doutor Tancredo! Tem certeza de que não é mesmo o governador?


— Infelizmente, tenho, minha filha. Mas quem sabe um dia chego lá?


Fonte: “Tancredo Vivo – Casos e Acaso”, de Ronaldo Costa Couto. Editora Record. Rio de Janeiro, 1995

Sofrimento

Na campanha para governador, em 1960, Tancredo enfrentava uma estrada esburacada, a bordo de um velho jipe dirigido por um motorista estouvado.


— Doutor Tancredo, como nóis sofre!


— Nóis sofre sim, mas ganhando a eleição nóis vai mandá.


Fonte: “Política, Arte de Minas”, de Carmo Chagas. Editado pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1993

Amizade

Tancredo é amigo de infância de José Monteiro de Castro, ex-deputado. Tancredo sempre no PSD, José Monteiro sempre na UDN. Depois, Tancredo no MDB, José Monteiro na Arena. Mas nada rasgou a fraterna amizade dos dois. Quando Getúlio se suicidou, em 1954, Tancredo era ministro da Justiça, ficou arrasado. José Monteiro foi ser Chefe da Casa Civil de Café Filho, ficou eufórico. Tancredo passou-lhe um telegrama:


“Mais amigos do que nunca, mas adversários do que nunca.” a) Tancredo Neves.


Fonte: “Folclore Político”, de Sebastião Nery. Geração Editorial. São Paulo, 2002