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Tancredo buscou garantir transição para a democracia

Este artigo foi publicado originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”

AÉCIO NEVES


Há exatos 25 anos, em um 14 de março como hoje, iniciava-se, no Hospital de Base de Brasília, o rosário de sacrifícios do ex-presidente Tancredo Neves, que culminaria com a sua morte em 21 de abril.


Foi como se aquela noite se fechasse sobre nós, densa e escura, com seus duros presságios.


Estávamos, todos, preparados para a alegria. Em Brasília, não havia festas somente nas casas confortáveis da beira do Lago e nos apartamentos do Plano Piloto. Em Taguatinga e Ceilândia, nas casas pobres e honradas dos trabalhadores, festejava-se o fim da ditadura, do estado policial e repressor.


Era a última noite sob o regime autoritário. Na recepção oferecida no Itamaraty, personalidades do País se confundiam com delegações de dezenas de países, que traziam os seus cumprimentos ao novo presidente.


Ninguém sabia, mas, naquele momento, o triunfo e a tragédia marcaram encontro na vida do mesmo homem. Da sua eleição, em janeiro, até o momento final, Tancredo se dedicou intensamente à grande tarefa da consolidação da transição. Ao contrário do que se supõe ainda hoje, ela não se concluíra com a vitória das oposições no Colégio Eleitoral do Congresso Nacional.


Desde a memorável campanha das diretas, na qual Tancredo se jogou de corpo e alma, ele carregava consigo, intimamente, a percepção sobre os riscos institucionais daquela hora.


Conhecia os limites da nossa elite política. Sabia que o País não podia perder a oportunidade de vencer o regime autoritário, ainda que fosse pelas suas próprias armas, no caso, o colégio eleitoral.


Vencida a batalha, ele iniciou outra exaustiva jornada para garantir a travessia, que, entendia, só se consumaria de fato, só se tornaria definitiva, com a posse. Só a posse daria ao novo governo os instrumentos políticos e jurídicos necessários para a sua própria consolidação.


Trabalhava dia e noite. Era incansável. Conversava. Ouvia. Tentava identificar resistências à construção do processo de redemocratização e corria a desarmá-las. E elas surgiam de várias formas: de pleitos regionais às pequenas vaidades pessoais não atendidas; de resistências ideológicas, aos grandes interesses organizados contrariados.


Era paciente, mas a complexidade das negociações muitas vezes o exauria, embora mantivesse sempre o bom humor, que cativava tantas pessoas e desarmava os espíritos.


Nesse ínterim, viajou pelo exterior em busca do imprescindível e estratégico apoio internacional das grandes democracias do mundo à incipiente democracia brasileira.


Recebia informações privilegiadas da área militar e sabia dimensionar o tamanho da insatisfação de setores diversos atrelados ao antigo regime, prontos para se reaglutinar a qualquer tempo. Bastaria uma motivação consistente.


Por isso trabalhava, articulava, conversava tanto.


A celebração do centenário de Tancredo e a visita aos valores que o tornaram um dos mais importantes líderes brasileiros da segunda metade do século XX nos trazem de volta reflexões acerca das grandes tarefas que nos foram legadas pelos homens e mulheres que devolveram o País à plena democracia, tantas delas ainda hoje inconclusas.


Uma parece ser mais central e atual que nunca: o desafio da conciliação política, que o acompanhou durante todo o longo percurso que fez pela história.


Como disse recentemente em pronunciamento no Congresso Nacional, conciliar, para ele, era construir caminhos. Sabia, como poucos, separar as circunstâncias do fundamental.


Era um autêntico construtor de pontes. Pontes que aproximavam as pessoas. Pontes que faziam o País ser mais inteiro.


Se tivesse ficado entre nós, acredito que elegeria a austeridade como diretriz central do seu governo, combatendo o descontrole dos gastos, o enriquecimento ilícito e o esbanjamento dos recursos públicos, enfermidades que até hoje mancham a vida pública brasileira.


Teria se contraposto à dramática desproporção entre os gigantescos encargos tributários no Brasil e o seu frágil retorno em serviços públicos de qualidade, que ainda é realidade incontestável no País.


A sua formação liberal e municipalista teria determinado profunda e histórica revisão das relações federativas, entre a União, os Estados e os municípios, em nome da justiça, da eficiência e da equidade.


Do ponto de vista histórico, temos um longo caminho a percorrer até que possamos ousar dizer que resgatamos a imensa dívida social que temos para com o nosso povo.


Tem nos faltado, no Brasil de hoje, o desprendimento e a generosidade que nos aglutinaram no passado. Tem nos faltado recuperar o sentido mais amplo da conciliação para que pudéssemos então convergir em torno das grandes causas nacionais.


No esgarçamento tantas vezes inútil da luta política, deixamos de enxergar e compreender que o País é muito maior do que as eventuais diferenças que tantas vezes nos distanciam.


Na história, não há apenas o que perdemos no passado ou nossas esperanças compartilhadas sobre o futuro.


Na história, o tempo é sempre.


E sempre tempo de construir o Brasil que queremos e sonhamos.


Aécio Neves é governador de Minas Gerais e neto de Tancredo Neves

Tancredo, um homem por inteiro

Este artigo foi publicado originalmente no jornal "Valor Econômico", em 12/03/2010 (link para assinantes)

ANDREA NEVES


Tancredo de Almeida Neves, cujo centenário de nascimento e a lembrança dos 25 anos de sua morte se dão neste 2010, está entre os atores políticos de maior relevância no Brasil da segunda metade do século XX, bem como entre os que mais foram corajosamente coerentes.


À primeira vista, parecem existir dois Tancredos. Um, extremamente ameno no trato e nas palavras. Outro, corajosamente radical nas ações e nos gestos. A fusão dos dois fez um homem por inteiro. Comprometido, sempre, com a ordem democrática. Absolutamente leal aos companheiros, honrando a palavra que empenhava, transformou-se num interlocutor confiável na cena política durante décadas. E, surpreendentemente, não jogava para a plateia, não buscava os holofotes.


Ele costumava dizer: "Na política, só se lembram de mim na hora da tempestade". Era verdade. Tancredo assume lugar de importância nacional em 1953. Com apenas 43 anos de idade, foi escolhido pelo presidente Getúlio Vargas como seu ministro da Justiça, considerada a pasta mais importante da época. Havia sido opositor do Estado Novo, advogava para trabalhadores e chegou a ser preso duas vezes no período. Mas considerava que Getúlio, ao ser eleito, ganhara legitimidade popular.

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O melhor presidente que o Brasil não teve

Este artigo foi publicado originalmente no jornal “Folha de S.Paulo”, em 15/03/2010 (link para assinantes) – 15/03/2010

RONALDO COSTA COUTO


1984, campanha presidencial. Tancredo precisava desvencilhar-se de boataria sobre sua saúde, um veneno para a candidatura. Fazer exames e escancará-los? Nem pensar! Sentia-se bem, mas era cismado com câncer, que já levara dois de seus 11 irmãos. Resposta a jornalistas, em São Paulo: "Estou com uma saúde irritante".


No final de 1983, despachávamos no Palácio da Liberdade quando chegou a notícia de que Flávio Marcílio, presidente da Câmara dos Deputados, tinha a doença. Lamentou, abateu-se. Ficou de pé, apertou o abdômen com a mão direita, quase um hábito, e disse: "Esse "bichinho" pode estar dentro da gente sem sabermos". Não estava, saber-se-á depois.


Realizava-se na política. Aos 74 anos, acordava com o sol, ia até tarde da noite. Todos os dias. Era um sufoco acompanhar seu ritmo. Mas delicioso privilégio conviver, trabalhar e aprender com Tancredo. É uma de minhas raras admirações que o tempo não levou.

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busto
J.Freitas/Agência Senado

Governador Aécio Neves ao lado do busto do avô Tancredo Neves. O busto foi inaugurado em 3 de março de 2010, no Salão Nobre do Senado, em Brasília, durante homenagem prestada ao centenário de nascimento do ex-presidente


Homenagem do governador Aécio Neves no Senado


Discurso proferido pelo governador Aécio Neves em homenagem ao centenário de nascimento de Tancredo Neves:


Senhor Presidente,
Senhoras e senhores Parlamentares,
Brasileiros,
Meus amigos.


Antes de mais nada, manifesto o reconhecimento de Minas a esta homenagem que o Congresso Nacional presta ao Presidente Tancredo Neves, nas celebrações do seu centenário.


Se ele vem sendo generosamente lembrado pelos brasileiros, em diferentes áreas, a homenagem dessa Casa tem significado especial, pois foi ao Parlamento que ele dedicou grande parte de sua vida.


Tancredo esteve sempre entre estas paredes, desde a inauguração de Brasília até aquela fatídica quinta-feira em que foi desviado de seu caminho.


Esta foi a sua casa, a sua trincheira cívica, o espaço para a alegria calorosa dos debates e para os momentos fortes de resistência e bravura.


Se olharem bem, com os olhos da Pátria, provavelmente o verão aqui.


Se não em sua poltrona, atento aos debates, nos corredores, ouvindo mais do que falando, fazendo entendimentos, conjurando perigos, tecendo, sem pressas inúteis e sem pausas estéreis, as bandeiras da paz.


Ele amava esta casa.

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